sábado, 19 de novembro de 2011

finn


Você se vitimiza tempo o suficiente, acaba acreditando ser uma vítima. Debocha tanto dos erros alheios, se pega fazendo outros bem piores. Machuca-se com tudo, nem percebe o quanto você pode machucar. E cada argumentação, cada possível justificativa, cai por terra quando se percebe que não existem, são frágeis, ignorantes, mais covardes do que francamente esperançosas. Boas coisas podem acabar, o inferno está verdadeiramente socado de boas intenções. Mas o que há no mundo fora disso? Zorra Total, péssimas futuras conversas com pessoas profundamente desinteressantes, dias longos, arrependimento e saudade. Se minha cabeça está nos lugares mais estranhos, eu sei que não tenho ninguém pra culpar além de mim mesmo.

Meu cigarro queima até o encontro dos meus dedos. Não existem respostas fáceis, caminhos seguros, problemas pouco complexos ao ponto de ser contornados com mentiras. Toda ação gera uma reação, e a reação de tudo é só o começo. Noites despertas, medo de tudo, desejo por uma porra de uma máquina do tempo. Minha surpreendente capacidade de autonegação chegou no seu estágio mais merda. Falar de epifania é sempre fácil demais, mas em cada mudança há uma morte interior pra que possa existir o renascimento. Não existe morte sem sofrimento, é só uma pena que eu não consegui trazer isso só pra mim.

Então o que fica quando a maré insiste em não baixar? Tudo acumula, nenhum fato é isolado, é tudo uma longa cadeia. Eu errei, não consegui admitir o erro, me convenci de não ter errado, até enfim perceber tudo que estava sendo feito. Cada mentira machuca, mesmo as feitas pra proteger, repetidas a exaustão ou meramente só soltas. Vira um pesadelo, você só percebe o quão errado é na prática. Não há senso moral trazido de nascimento, alguns conhecem logo de início, outros nem tanto. Eu sempre odiei esses outros, só não sabia que ia acabar me odiando.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

peur


João chegou em algum lugar, era meia-noite no mundo inteiro. A neve se acumulava na sola do seu sapato, só a madrugada fora poupada pelo frio. O céu parecia enfermo, vermelho, contorcido, mal desenhado. João enxergou a luz por dentro do estabelecimento e decidiu entrar. Nele, uma senhora veio ao seu encontro:

- O que você deseja? - seu tom era de cansaço, mais do que de subserviência.
- A noite está cruel demais pra que eu possa prosseguir, eu posso dormir em algum lugar aqui?
- Aqui? - respondeu outra voz, vinda de um canto escuro do quarto. Era um senhor que, francamente, parecia ter 200 anos.
- Sim, senhor, se for possível.
- Bom, possível certamente é. Não recebemos muitas visitas aqui, e por um bom motivo. Acredito que você seja estrangeiro.
- Sou sim, mas por que do isolamento de vocês?
- Acho que não posso culpar os nossos vizinhos, eu certamente não manteria contato comigo mesmo considerando a minha situação. Você pode ouvir minha voz? Ver meu rosto? Sentir minha presença? Quando você perdeu a cabeça, João?

Quando ele acordou, nenhum rabisco de luz o encontrava de lugar algum. No cômodo tinham quadros, João tinha a impressão de vê-los movendo. O vento fazia barulho de coros, João se encolheu.

- Solitário? - disse o senhor, embora João só tenha percebido a presença de sua voz no quarto escuro. - Qual a sensação de andar sem destino?
- Menos interessante do que parece. Eu prometi a ela o mundo, mas a mim só restou o mundo.
- Essas coisas nunca mudam, acho que todo mundo vai sempre sofrer pelas mesmas coisas.
- Eu falei que ia escrever um livro sobre tudo por ela, por isso eu caminho por esses lugares. Aonde estamos exatamente?
- Não posso te precisar, em algum lugar inventado na sua cabeça parece bom.
- Aqueles quadros parecem se mover.
- Não repare. Sabe, quando eles vieram levar minha senhora, meu coração disparou. Eu não fazia ideia do motivo daquilo tudo. Acusações foram feitas pra todos os lados, eu sabia que ela era inocente de tudo. Seu rosto contorceu quando a penduraram na forca, eu tive por muito tempo pesadelos com o som que não ouvi de sua voz. Todas as noites eu acordava uma dezena de vezes, sempre com a impressão de alguém estar do meu lado. Nos meus sonhos, nós corríamos por jardins enormes, nunca era hora de ir. Nunca era hora de ir. Até que foi hora de ir.
- Por que você fala de tudo no passado? Você conseguiu superar?
- Nunca.
- Então por que?
- Vá dormir, João.

Quando ele acordou, alguns rabiscos de luz o encontravam de algum lugar. No cômodo tinham janelas, João as encarou fixamente, imobilizado pelo medo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

sentiment de la vie

O diabo apareceu nos meus sonhos.
- Por que você fica me chamando? - disse ele.
- Não achei que seria ouvido. Nenhum outro motivo, acho.
- Você ainda checa embaixo da sua cama todos os dias, ainda corre no corredor escuro, ainda fica imóvel com qualquer barulho de vizinho.
- Acho que essas horas eu posso me permitir essa incoerência.
- Pode, meu filho. Você se lembra do campo?

Era tarde aquele dia, a estação tinha acabado de chegar. Flores surgiam de tudo quanto é canto. Eu estava sentado em algum banco de praça, quando tudo me bateu. Minha alegria foi tremenda, precisei entrar numa Igreja Universal do Reino de Deus. Um segurança me barrou.
- Você precisa ser mais velho pra entrar aqui. - o segurança mantinha um dos olhos fechados por algum motivo.
- Você se lembra dos dias no campo?
- O que sobre os dias no campo? Eu nunca tive dias no campo.
- Sim, você teve. Uma vez em alguma cidade do interior, sua mãe foi passar uns dias numa fazenda de uns amigos. Era frio, foi a primeira vez que você viu fumaça saindo da sua boca. Você estava feliz.
- Sim, e daí?
- Você se lembra do que houve?
- Sim, eu andei de bicicleta até eu cair numa cerca.
- Com quem você está falando? - o segurança estranhamente abriu o olho.

Repete. Os dias no campo. Acho que não houve muitos deles.
- A casa da minha vó cheirava a natureza, era o que eu achava. Era o mais suburbano que podia ser, mas pra mim parecia tão selvagem, tão inexplorado.
- Você se lembra dos aniversários lá?
- Sim, lembro que tinha um joguinho dos Flintstones.
- Você ganhou uma garagem grande de carros. Seu irmão montou pra você. Agora, diga, meu filho, por que isso agora?
- Não sei, acho que nunca vou sair da parte boa da minha infância. Eu sou uma porra duma criança, afinal.
- Você está perdendo. Você sabe o que é o inferno? O inferno é machucar a pessoa que você ama de novo, e de novo. Até você não conseguir dormir mais, distraído pelo barulho dos seus dentes caindo por toda a noite.
- Eu não quis...
- Irmão, se você quiser sentar, tomar um pouco de água.
- Quem disse isso?
- Foco em mim. Por que você segue me chamando?
- Ouço estalos na minha geladeira.

Minha sala está vazia.
- O som de violinos preenche meus ouvidos.
- Ah, música. Seu pecado, meu filho, seu inevitável destino.
- Eu não vou mais machucar ninguém.
- Fique – o diabo acendeu um cigarro. - Fique só mais um pouco.
- O que eles não te dizem sobre o amor é o quão visceral ele é. Faz-te querer pintar a parede com seus miolos, até não restar nenhum vestígio de algum sonho. Sonho de um futuro que pode nunca acontecer. Que eu quero.
- Ela quer também.
- Mas pra onde podemos ir disso?
- Irmão, o culto de hoje começa somente as 20h, você não quer comparecer mais tarde?
- Eu fico ouvindo esses números na minha cabeça...
- Lembra quando você era criança, que você fazia a voz de todos os bonecos com que brincava? Ainda hoje você fala com video-games, como ficções que você cria.
- Por que isso?
- Acho que é mais fácil viver assim. O que há lá fora?
- Frio. Só o frio foi deixado pela madrugada.

Era uma madrugada particularmente fria. Meu casaco estava no outro cômodo, mas eu juro que parecia quilômetros de distância.
- Eu te seguirei não importa aonde você vai, sabe por que?

Agora estou no balanço. É o prédio aonde cresci.
- Porque você nunca realmente vai embora.
- Mas eu fui, fazem 7 anos ou algo.
- Lembra quando você botou os óculos verdes? O jeito que o céu ficou verde igual? Lembra de escrever letras de músicas em pastilhas?

Meu rosto dói.
- Por que você se bate?
- Porque eu sou terrivelmente fraco. Violentamente romântico. Idiota ao ponto de precisar de um novo termo aumentativo pra “idiota”.
- Medroso.
- Talvez sim, você mesmo disse que eu olho embaixo da cama toda a noite.
- Não subestime o amor. Quando tudo parece perdido, se for de verdade é nessa hora que você vai se encontrar.
- Posso fumar um desses?

Pergunta retórica. Óbvio que posso. De volta pro balanço.
- Você sabe que realmente está falando sozinho né?
- Eu gostava de mentir pra mim mesmo que andava com as mãos na cabeça. Eu sempre andei tão normal. Sempre houve tanta normalidade na minha insanidade. Meus traumas não são os maiores do mundo, ainda assim, por que montanhas pra mim?

O balanço cessa seu movimento. Repete. Os dias no campo. Acho que não houve muitos deles.
- A casa da minha vó cheirava a natureza, era o que eu achava. Era o mais suburbano que podia ser, mas pra mim parecia tão selvagem, tão inexplorado.
- Você se lembra dos aniversários lá?
- Sim, lembro que tinha um joguinho dos Flintstones.

Eu já disse isso.
- Sim, mas você está realmente sabendo o que está sendo dito?
- Acho que só queria uma chance de algo romântico, ser algo verdadeiro que não iria embora. Minhas intenções são boas.
- Você tem a garota, mas tê-la é um mal pra ela, então de que te vale?
- Eu tenho medo.

E eu ainda tenho. Não desiste de mim. Não desiste de mim.

domingo, 9 de outubro de 2011

top 10 - letristas

Como em todo começo bosta de texto meu, já solto logo de cara que letras são um bagulho estranho – cada dia mais próximo da ABL, hosanna nas alturas! Tendo a não prestar muita atenção, mas acho estranho como elas são realmente pouco valorizadas por muitas vezes. Frases de efeito soam bacana, aquele efeito inegável beirando o universal, mas eu tendo a ser ainda mais cegamente subjetivo com palavras do que com melodias. É necessário rolar correlação, caso contrário eu desligo e imagino que todo o vocal é sobre jogar boliche. Selecionei 10 compositores e organizei em forma de lista descendente, só porque eu sou assim desocupado.


10- Bill Callahan

Da brilhante “cena” de rock-country depressivão (Cat Power, Will Oldham, Jason Molina, etc), nosso querido cantor anteriormente conhecido como -Prince- Smog consegue passar melhor o desespero vazio que existe em cada paisagem bonita. Relatos intensamente pessoais construídos em torno de fragmentos de frase são o tipo de coisa que deixa meu cachorro sorrindo, e ele – Bill, não meu cachorro – tem um jeito de fazer isso sem alienar quem está ouvindo. Melodias simples, geralmente arranjadas com poucos instrumentos e menos acordes ainda, dão o tom austero pedido pelas palavras. Canções de ausência, canções de desesperança, canções de loucura.


9- MF DOOM

Nessa lista principalmente por seu trabalho no Madvillain, eu não resisto a rimas internas. O crioulão inglês Daniel Dumile ficou famoso por usar a máscara do Victor von Doom em todas as suas aparições públicas, o que, embora seja brilhante como estratégia de publicidade (e existem faculdades dessa porra), acaba deixando em segundo plano seu brilhante talento como letrista. Os temas não são necessariamente profundos, mas é a forma como as letras se desenvolvem que simplesmente me prende. Cada palavra soa bem numa sequência aparentemente eterna, Dumile no auge da sua carreira conseguia construir verdadeiros labirintos em forma de rimas.


8- Daniel Bejar

Arrependimentos pequenos cercam as palavras de Daniel muitas vezes, em outras ele celebra algum amor antes desses arrependimentos. Odeio o termo “selvagem”, mas me parece inevitável, considerando como o vocal do Destroyer sempre parece que vai descambar pra gemidos e barulhos. Só que faz sentido no final. No Kaputt, Daniel soa velho, cansado, ultrapassado. Tudo envelhece, nós estamos fadados ao cansaço antes mesmo do dia começar, ainda que poucos aceitam essa ferrugem. Bejar aceitou, abraçou e fez dela tema, brilhantemente sobreposto com composições bem Pet Shop Boys. Tipo um Julio Iglesias, só não sei dizer o como exatamente.


7- Tom Waits

Embora eu goste das letras da fase teatral, é no começo da carreira que o Tom Waits realmente brilha pra mim nisso. Seus contos decadentes de bares mefistofélicos perdidos em inenarráveis fumaças de cigarros vagabundos enchem meu coração, é uma espécie de Bukowski que ainda não foi descoberto e imbecilizado por miríades de curitibanos. Se nosso querido Thomas tivesse gravado só o Closing Time já estaria com certeza nessa lista, cada faixa tem letras melancólicas e inspiradas, tocadas no piano e com a voz rouca mais espetacular da história.


6- Brian McMahan

Slint é o som da vida se fudendo. Os vocais exclusivamente falados e gritados do Brian McMahan dão a tensão necessária, mas é nas letras que o verdadeiro abismo reside. Lentamente, Brian constrói cenas horríveis de ataques de pânico, isolamento, insanidade e tudo mais daquilo que habita no lado negro do ser humano. Relatos dão conta que ele especialmente tímido, tanto com sua voz quanto com o que escrevia, o que se traduz perfeitamente no som. Não é fácil de digerir, mas as melhores coisas tendem a não ser. A obra-prima que é o Spiderland é inteira composta pra ter um climax, que acontece perto do final de “Good Morning, Captain”, e nenhuma outra vez na música houve um impacto tão profundo quanto o sentido nos últimos gritos do nosso tímido cantor.


5- Jeff Mangum

Sequências de stream of consciousness doentios envolvendo alguma forma de atração sexual pela Anne Frank, utilizado, obviamente, como metáfora pro estado mental do locutor, formam o texto de In the Aeroplane Over the Sea. É sobre amor, mas amor nem sempre é romântico. Nas 11 músicas que formam a genial obra-prima do Neutral Milk Hotel, Jeff Mangum despiroca em imagens medonhas, situações lamentáveis e num geral um senso de desespero decadente. A última faixa do álbum, “Two Headed Boy Pt. 2”, fecha o disco com uma observação triste e hipnotizante ao mesmo tempo. É aquela zona cinza bizarra aonde esperança se mistura com aceitação de um futuro pior do que esperávamos. Tem um episódio de Simpsons aonde o Moe encoxa uma anã, só para perdê-la no final do capítulo. Depressivo, Moe limpa o balcão do bar quando o Homer chega e pergunta o que houve. Ouvindo a narrativa do barman, Homer solta algo como: “pensa que ela te amou. E se ela te amou, quer dizer que outra pessoa pode vir a te amar de novo, e quando você perceber isso você vai sorrir”. Moe sorri. A vida pode ser uma merda às vezes, mas não parece que teremos outra.


4- Patrick Stickles

Barbudão com pinta de Loser Mano, Stickles felizmente não tem nenhuma relação com a arrepiante banda brasileira. Citar Bruce Springseen, primeiro em referência e depois por nome, é algo que já faz qualquer letra ser boa. The Boss não está nessa lista por alguma tecnicalidade, e porque ele nunca alcançou o nível de brilhantismo lírico alcançado por Stickles em “The Monitor”. A guerra civil americana serve como cenário bizarro pra narrativa, sendo que o assunto verdadeiro é a decadência do cotidiano. Sobre idiotas ganhando salários altos pra fotografar balada. A última frase do disco me faz chorar em cada vez.


3- Phil Elvrum

Existe uma qualidade infantil nas palavras do criador de Microphones e Mount Eerie. Phil constrói imagens e cenas sem muitas atribulações, suas letras são diretas, sem adornos. Trilha-sonora perfeita pros momentos mais obscuros que temos antes de dormir, a voz aguda do nosso querido compositor é desesperadora na mesma medida em que é confortável. É mais fácil ficar deprimido do que lutar contra, mas facilidade, na teoria, tem pouca relação com a realidade quando tudo é tão difícil, na prática.


2- Aidan Moffat

Escrever sobre fuder é um troço arriscado, você inevitavelmente vai acabar caindo num Marvin Gaye de enésima categoria. Moffat, no entanto, fez sua carreira relatando escapadas sexuais e a completa ausência delas. Sexo é uma parte importante da vida, principalmente pra quem não está conseguindo nada. O sotaque carregadão de Aidan, somado com arranjos hiper estilizados, fazem o clima de bar fechando proposto pela banda parecer ainda mais crível. Boa trilha, também, para momentos com a garota certa, que nem eu achei a minha.


1- Isaac Brock

Se todo mundo que diz conhecer Modest Mouse tivesse ouvido além dos dois últimos discos, porra, o mundo seria bem melhor, se não certamente menos irritante. Mas Curitiba existe! As letras do Isaac são de uma complexidade simples, coerente com o seu criador. Uma infância difícil, completa com ser escolado em casa, ver sua casa sendo inundada 3 vezes, tendo que morar num trailer. Inspirado fortemente pela religião, ou melhor, ausência dela, Brock coloca no que canta uma tremenda carga emocional. Suas letras são cheias de momentos que te fazem pensar “porra, pode crê, irado”, ou sei lá o que as crianças estão falando hoje em dia.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

rei das flores de cenoura


Batidas de coração. Perdendo o rumo. Saindo do tempo. Pulsando. Como desenhos na areia, minha visão dissolve com a chegada da água. Existe uma luz no quarto, uma luz. Eu checo minha mochila de novo, e de novo, nunca a me assegurar que meu livro não caiu em algum lugar na rua. A avenida está vazia, apenas as luzes de postes no horizonte indicam alguma vida enquanto eu desço. Minha cabeça dói, eu não lembro do dia em que ela desistiu disso. Mas algum dia virá, eu digo pra mim mesmo. Meu dia já está escrito, em tinta invisível, com adornos tortos e aliterações ruins. A floresta é funda, sento num banco e olho pra cima. O céu parcialmente encoberto por folhas revela a luz da lua sobre as nuvens, nenhuma estrela a ser vista. Até que eu encontro uma. Dessa vez a lua não desce pra me entregar uma maçã. Pequenas constelações aparecem aonde meus órgãos deviam estar. Eu estou feliz, ainda que exista uma melancolia em mim que nunca vai desaparecer. Eu ouço o apito. Embaixo d'água agora. Batidas de coração.

E elas aceleram. Ela se move. Seu sono não é combatido. Há uma paz nele. Como um dia no parque, vendo as crianças brincando até a hora em que os brinquedos fiquem desocupados. O silêncio após a tempestade é muito maior do que o que a precede. Furacão. Meus pés estão frios. Castelos na França. Eu não gosto de castelos, eu sou o filho do meu pai. O vulto passa por mim, ele fala comigo em uma língua estrangeira. Estrangeiro, destinado a ser sempre um turista. Não há tristeza, no entanto. Um sol feito de queijo que não te fizesse mal. Acredite em mim. Nós vamos crucificar todos os medos, todos os sonhos ruins.

Batidas de coração. Respiração funda agora. Pesadelos? Estou em algum lugar, perdido no meio do mar. Perdi meu navio, flutuo num bote salva-vida. Algo me alcança pela água. Não escuto uma voz. Acordo na exata metade da noite, minha cabeça no lugar mais estranho. Batidas de coração. Escuto a música em minha cabeça. Relaxante pra mim. Tudo está no seu lugar certo, por hoje. Por agora. Bocejo. Ela se mexe. Fui barulhento? Percebo que nesse momento utilizo a cortina como uma peruca, rapidamente me ajeito. Sorrio pra mim mesmo. Escrevo poesias na minha testa. Por hoje. Batidas de coração. Lentas agora. Distantes. Coração de chambinho, daquele bem rosa. Rios disso. Barcos de bolacha. Árvores de qualquer coisa. Não quero deixar agora.

A manhã. Batidas de coração. Minhas mãos estão dormente. Deus, eu estou inteiro dormente. Pergunto-me se estou dormindo, como um daqueles sonhos hiper-realista aonde tu acha que acordou, vai na cozinha e a gelatina fala contigo. Ou o salaminho. Sou gordo, quem eu estou tentando enganar? O iogurte light nunca tem voz nos meus delírios, imagino que se tivesse soaria algo como o Antônio Fagundes. Ah, a ironia. Divaguei. Como sempre. Batidas de coração. A música soa pelo quarto. É a hora. Batidas de coração. Batidas de coração. Batidas de coração. Batidas de coração.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

surf side of the moon


Moleksom está sentado em sua mesa. A sala está esfumaçada em seu próprio sucesso, em sua indefectível glória. Podemos nunca ver o retorno do salvador, mas Moleksom não podia se importar menos. Não mais. Olhos fixamente no relógio. Ele é o produtor mais relevante da cidade, ele finalmente conseguiu. O que exatamente ele produz ainda não foi descoberto por ninguém. Funciona. Só funciona. Claro que incautos podem chamar de incompetência generalizada, ainda assim isso não faz sentido. Por que alguém deveria saber fazer o emprego pelo qual um é pago pra fazer? O mundo é um lugar cruel, cachorros choram na chuva, crianças ecoam desesperadas na madrugada, faculdades entram em ruína um pouco mais toda vez que algum garoto fala de assuntos extremamente batidos como se fosse um visionário. Por que as pessoas não conseguem levar um pouco menos a sério? O que aconteceu com a hora do soninho? Moleksom não julga ninguém, com algumas exceções. O relógio se move. É hora de partir.

Um exemplo clássico de imponente masculinidade, nosso herói caminha de crocs pelo corredor do mercado. Uma mosca acerta seu olho. Ele não se move. Não hoje. Hoje é seu aniversário de namoro, sua mulher é uma respeitada cantora de MPB. Com ela, Moleksom troca confissões, poemas e prosas alucinantes. Delírios de noites de verão. A alma jovem se contorcendo em pura inspiração. Moleksom coça o sovaco, cheira, e então se lembra que precisa comprar desodorante. Ele viu uma inspirada campanha de Axe Y, discutiu fervorosamente com todos que não queriam ouvir como aquilo era bem feito. Fazia sentido. As luzes do mercado misteriosamente se apagaram.

Verão, algum lugar nos anos 90. Uma banda de garagem está mandando ver em algum festival. Os jovens com seus poucos anos de adolescência abrem o concerto pra Comunidade Nin Jitsu. Guitarras gritando. Vocais majestosos. Ecos de grandeza. Você reconhece qualidade quando ela te acerta no rosto. Canções de ninar pros zumbis dos nossos tempos, música do cotidiano, a verdade em forma de som. Ele finalmente achou seu som, sua voz. O mundo é um lugar melhor por isso. O público delira. Algo novo. Algo que nos lembra a descruzar os braços em um show, abraçar as pessoas que estão no palco. Algo pra rir, e aonde foram parar essas risadas? Algo pra... Ei, o que aconteceu com os amplificadores?

Moleksom abriu os olhos. Os corredores estavam marcados de sangue, barulhos rondavam as prateleiras. Aliens. Daqueles bem clichês, parecidos com tartarugas ninja. Ele sabia que era o próximo. Seu coração acelerou. Não tinha como fugir, não tinha como se esconder. Era a hora. A hora que ele seria levado, todas as coisas vão. Moleksom começou a chorar. Nunca aprendera se fazer tudo com um guria podia ir além de alisá-la. Nunca fora pro Havaí. Um vulto no corredor. Moleksom gritou de medo. Suas últimas palavras ressoaram fortemente pelas paredes do mercado: “e meus bloqueios?”

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

de tessalonicenses, com ternura


Meu nome é Maicossuel e eu sou uma coxinha. Acho que essa é a primeira coisa que te fazem falar numa entrevista de emprego, por algum motivo. Não que eu seja de grande qualidade, minha massa é seca e meu recheio não faz sentido, mas ninguém escolhe o como nasce. Não conheci minha mãe, ouvi dizer que meu pai usava um belo topete. Minha namorada mora a dois vidros de distância, é o risoles de carne mais bonito dessa porra. Ainda não consumamos nosso relacionamento, namoro a distância é delicado, além do mais eu ainda não sei se eu tenho pinto. Eu deveria ter, sinto uma coceira aonde a alma jovem deságua, mas, honestamente, não sei até que ponto uma coxinha bem dotada seria algo plausível. A moça que serve os outros salgados tem uma certa beleza distinta em si, com seu cabelo amarrado em forma de batata frita, suas unhas de várias cores, seu charmoso sombreado de um bigode. Ouvi dizer que bigode em mulheres é buço. Uma rápida pesquisa no Google resulta em diversas imagens demasiadamente explícitas e num geral sem muito valor, não recomendo.


Estava pensando sobre o estado da música brasileira. Sério, falta apoio. Em cada garagem existe uma grande banda sendo formada, está na hora de valorizarmos melhor isso. Onde está o público? Acho que estão todos ocupados ouvindo indie gay. O que aconteceu com meu rock and roll? Em meus sonhos eu vejo garotas de meia arrastão, carros de corridas antigos, bandas fora da lei, gente ouvindo Raul Seixas! Deixa-me deveras triste ver o estado de tudo. A moça que atende o caixa aqui está estressada. Gritou algo sobre perder sua menstruação, tomara que ela a ache logo.


Minha namorada está meio preocupada hoje. Acredito que sua estufa pode estar mal regulada, o serviço aqui já foi melhor. Eu me lembro com lágrimas nos óleos do tempo em que ficávamos acordados até tarde, tocando violão em rodas de fogueira. Nessa época eu tinha uma banda, sim senhor: Eu, você, o Pão de Queijo e os meninos do sopro. Ah, doces sons de outrora, como uma brisa leve vindo de oeste, indicando geralmente chuva ou boas ondas. Por que eu deveria cortar meu cabelo? Não senhor! Eu não vou me adaptar! Eu nunca vou me adaptar! O espírito juvenil nunca pode envelhecer. Posers tentam imitar, até conseguem a atenção das garotas, mas eu sei que entre quatro paredes elas suspiram meu nome. Que porra eu devo fazer? Sou gostoso mesmo, vou direto pra sua bunda, calorias primeiro, pergunto o nome não.


O sol reflete nos meus suaves traços. Mais um belo dia nesse planeta, quero beijar a grama e... Ah não, ah não! O assassino da camiseta do Vasco! Todo dia esse cara vem aqui e leva alguns dos meus vizinhos, isso não pode estar certo. Sempre grudado no balcão, falando algo sobre oferecer Red Label pras garotas em troca de favores sexuais amplamente desfavoráveis, tratamento contra calvice e num geral pagode. O que ele está fazendo? Por que suas mãos estão em torno de mim? Ele está babando. Isso não pode estar certo. Mães do mundo, por que seus filhos não comem frutas? Ouvi dizer que elas nunca tiveram terminações nervosas, muito menos faziam “mu”. Ó destino trágico, ó morte lamentável. Como deve ser encontrar sucos gástricos? E todos meus sonhos? Eu nunca conheci Paris! Penso em tentar uma escapada, me jogar de sua mão e rolar por sua câmera. Meu plano falha, não consigo me soltar. Acho que você tem que apreciar alguém que pega seu salgado com tanta força, como uma garota católica esmagando a bíblia em seus vastos seios. A primeira mordida. Ele quase acerta minha cabeça, meus sentidos vão desaparecendo. Rapidamente perderei a habilidade da fala. Tanto que eu queria comentar, tanto pra se falar, tão pouco tempo. Nunca consegui entender qual é o lance de akakkaska/q//1/1/sasasozoizoiioiooi2@!1Asdas&*8SdsaqSZZXxzx …. aasazcxxaooq!!!    /   /       & ..,,,                        ! , Aaaah1                  .

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

todas as garotas choram


Nosso protagonista Charles fora atropelado naquela tarde. Ele não viu o carro, devia ter sido um vermelho – afinal, vermelho era sua cor desde o desfile de 1ª série nas olimpíadas do colégio interno. Sua namorada havia saído para uma viagem com seu primo, Jorge, mesmo Charles desconfiando do grau de parentesco, afinal, sua digníssima não tinha praticamente nada de latina em seu sangue. Jorge era um jovem esguio, bigodes amplos estampavam seu fino rosto, cabelo com corte militar repartido ao meio, feição de algo que você normalmente veria no Discovery Channel. Charles mancava pela avenida, todo o seu público aparentemente decidiu ignorar sua contusão, era meio patético. Ele nunca crescera um bigode, jamais uma barba, não chegou a ter uma jaqueta de couro. Socialmente inapto, Charles trabalhava numa sorveteria, aonde o seu sabor favorito, de pistache, encontrava-se permanentemente fora de estoque. Ele estava vindo de lá, encarando o trânsito e as obras, estampado com seu uniforme branco e rosa ridículo – ao qual ele mesmo se referia como “minha fantasia de Carlinhos de Jesus”, o que não podia ser mais apropriado – ignorante aos acontecimentos matinais, tentando se manter despreocupado. Seu cachorro, o Sussa, estava com algum tipo bizarro de pneumonia, passava seus dias tossindo e melancólico.

Manquitolando em direção a algo, Charles então começara a se perguntar sobre seu sobrenome. Claramente ele devia ter um, ainda assim foi algo que passou despercebido pela minha cabeça. “Pinheiro” parecia uma boa escolha, mas ainda assim nunca entendi qual era o lance disso. Exercício frugal, embora que nessa altura tudo parecia fútil na cabeça do nosso herói. O sol brilhava cada vez mais, nem era verão mas o calor estava evidente, como uma música ruim idolatrada por nenhum motivo conhecido. Era um pouco demais. “Por que ela fizera isso?”, era a pergunta que não escapava da sua cabeça. Pessoas tendem a entrar e sair da sua vida, mas por que ele não tinha um voto sobre a segunda ação? Parecia injusto. Ele queria chegar em casa, ver seu cachorro sorrindo, com balões espalhados por todos os cômodos, sorrisos rosados e graciosos pintados em todo corredor. Não havia muito disso esses dias.

A primeira queda. Como um boxeador ignorando todos os limites de seu corpo, nosso amado protagonista se pôs sob seus pés novamente. Ainda, perguntas não o deixavam. Como Jorge estava se sentindo agora? Ele estava a beijando? Lambendo? Mordendo e arrancando pedaço, do sangue que Charles nunca provara? Uma garota o interpelou, perguntou se ele queria participar da promoção do dia dos pais de uma operadora de celular. Era essa época de novo. Charles suava como um burro cansado. “Eu não comprei meu Mac!”, e tentou correr ignorando o caminho. Cicatrizes são a mais óbvia expressão de dor, mas são as marcas internas que realmente nos matam. O sangue começou a encharcar o uniforme branco e rosa horrível. A segunda queda.

Quando Charles abriu a porta, o Sussa veio o receber. Seu rabo abanando como um autêntico ventilador foi uma revelação. Tudo estava bem. Jorge se encontrava empalado, ao lado da TV, o simbolismo pareceu claro demais. A música começou a ecoar no ar, ó dias passados ao doce som de Kenny G! Você tem que admirar alguém que se nomeia pelo nome do ponto feminino mais mistificado. Sua namorada o esperava na cama, com pequenas flores jogadas pelo quarto. Vela com aroma de frutas, tão cítrico nessa estação! Toda a cena estava suculenta, como um bife recém-tirado de sua manteleta, o que não faz sentido e é, francamente, um pouco nojento, mas pareceu uma boa alusão na hora. Uma casa feliz com sonhos felizes. Charles se sentou ao lado de sua mulher, e começou a contar todos os seus planos, enquanto a luz se apagava.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

título

Diário. A cidade cheira a essência de sauna, todas as pessoas se limitam a lustrar latas de lixo. Trouxe, mãe, não precisa levantar. Minhas músicas ainda são as mesmas, acho que posso dizer que não mudei tanto. João acordou somente para encarar o céu assustador ao seu redor, na janela sua avó esquecia as frases na metade. Eu estava no meio da rua quando vozes me cercaram, nunca realmente se aproximando, só quando as luzes morreram. Valsa. Padaria que oferece punheta no cardápio. Sou pra sempre uma propaganda ruim num programa de auditório chato. A garota está morta, nenhum Deus nunca pode te ajudar, não existem gigantes que merecem a morte, o jardim secreto foi uma invenção. Ouço um espirro saindo do meu armário. Caveiras mexicanas dançando. Ainda não há muito em mim que eu respeito. Não quero esquecer, como num liquidificador de memórias. Lucidez. Amor esquenta. Espelho. Anagrama. Seja você de novo outras vezes. Lucidez. Na janela sua avó esquecia as frases na metade. Netuno não está logo ali, queria jogar boliche de video-game mais uma vez. Estamos dançando agora, enquanto nossos pés param de tocar o chão. Não há diálogos, não sei usar aspas, porra nem vírgulas. Acho que - acredito que - eu talvez deveria tentar - conseguir,. João acordou somente para ! Porra de estrelas cadentes, sonhos com, rodas gigantes meu parque de diversão secreto. noturno, cheio de gente que eu não conheço e - completamente perdido no senso de tempo espaço... Eu consegui, escapar do castelo, escapar do castelo escapar do, castelo. Exercício lamentável da minha parte. Punheta que oferece padaria no cardápio. Abri a geladeira, falou comigo minhas. Mãos não tocam mais meu rosto. Discos esquecidos arranhados se repetindo aquele armazém tem um. Lobisomem que empala garotas. Sonhos com o cachorro sorrindo. Ouço um liquidificador do meu armário a morte, o jardim secreto foi uma invenção. Mar perdido .                                     !

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

humanae mundique fictione

Encha meu copo, minha cabeça nunca cansa de estar vazia,
cansei dos rostos me seguindo pela areia, cansei da areia
tocando em meus pés enquanto eu finjo não estar pensando
em tudo aquilo de novo, tudo aquilo de novo, você sabe do que falo?

Eu lembro da noite vermelha, Mariana;
foi quando eu te carregei pelas ruas, você desmaiada, bêbada, desesperada,
seu rosto se contorcendo em cada pensamento nunca a ser revelado,
sua boca cortada em diversos pedaços, sem qualquer expressão,
seu coração partido em cortes, sem qualquer esperança,
sem qualquer alívio, qualquer pausa, qualquer perspectiva,
foi quando eu sorri pra ver seu sorriso, nada a ser revelado,
eu vi você daquele jeito tantas vezes, tantas vezes,
não há até hoje um dia em que eu não olhe pras minhas mãos
e as queira em volta do seu pescoço,
apertando cada vez mais, apertando até não haver o que apertar,
e eu te jogaria no chão, daonde você nunca devia ter saido,
pegaria a primeira pedra e te esmagaria até não sobrar mais,
até você não poder voltar pra me culpar pela minha distância,
pela minha indiferença, nunca foi indiferença,
nunca me culpe disso, eu não sou indiferente,
eu sou uma porra dum turista na pior cidade do mundo,
o que você acha que sabe?
Todos os garotos ignoram isso, eu não consigo, eu nunca consegui,
é tudo aquilo de novo, sabe, é o que eu mencionei sem citar,
o que expliquei sem usar qualquer palavra conhecida pelo homem, a melancolia no silêncio.

Quando o vento parou estava chuvendo na praia,
minha cabeça não voltou do lugar mais estranho para o qual ela já foi
para o qual ela ousou ir, me contrariando de novo.
Eu vi de tudo, eu vi de tudo, perdido em estar perdido no meu mundo,
foi quando eu ouvi sua voz,
foi quando você me disse "olá" e eu só consegui ouvir "adeus",
foi quando eu inventei todos meus contextos, todo meu passado.
Eu não vi nada, eu nunca vi nada,
eu não saberia dizer como se sente não ser aleijado por mim mesmo,
eu estou fudido desde o útero, desde o conceito inicial,
não parece que vou me infuder no futuro,
não vejo nenhum machucado, nenhuma maldade, meus bonecos ainda estão guardados,
esperando que eu me renda, sabendo que eu vou.

Não luto por uma porra de uma revolução, não luto por lutar nada,
foda-se quem se acha especialista em tudo,
foda-se quem acha que deve me aconselhar em tudo aquilo que eu não controlo,
foda-se quem corre as ruas clamando ser diferente,
foda-se quem se nega a ignorar o mistério em tudo,
foda-se quem julga ser mais inteligente do que eu,
foda-se eu, acima de tudo.

Encontre-me em qualquer lugar e em qualquer hora da noite,
enxuge meu rosto, dance comigo,
sinta meu coração disparando em qualquer menção de algo poder estar errado,
ouse por mim que nem eu faria por você,
olhe nos meus olhos e me convença que a manhã nunca virá,
que essa noite não tem como acabar, que não pode acabar,
escape comigo da minha tempestade invisível.

Encha meu copo, minha cabeça nunca cansa de estar vazia,
eu sou o que sobraria deles quando meu plano estivesse completo,
encostado sem direção no muro de um terreno baldio,
vadio sem expressão num pulo escondido,
porque não há como desfazer cada coisa estúpida que fazemos,
meus fantasmas sempre voltam pra me estuprar silenciosamente,
como num grito, num espanto, num medo,
eu vivo e morro por isso tudo, vivo e morro por isso tudo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

top 10 - vocalistas

Odeio parágrafo de abertura de Top. Pra mim ou é anedota envolvendo um detetive chamado Max Pênis ou o rolê não fez sentido. Vou me limitar.

Menções honrosas: Nelson Ned.


10- Otis Redding



Eu tenho uma teoria que negros, de uma forma geral, conseguem imprimir muito mais sentimento na voz do que brancos. É questão cultural. E, muito embora possa parecer racismo, isso realmente transparece, ficando bem evidente com o nosso amigo Otis. Morreu cedão e mal, mas enquanto vivo comia todo mundo, nunca deu uma broxada, espantando as fêmeas com sua jurubeba tamanho bem grande. Seu tom era sempre perfeito, suas músicas são pra dançar juntinho com a pessoa em questão.


09- Kazu Makino



Um amigo meu certa vez apresentou uma brilhante ideia sobre como comer uma japonesa seria uma boa, afinal, elas tem o CANAL VAGINAL teoricamente mais APERTADO. Não sei que sentido tem isso, até porque não comi uma japonesa na minha vida. Mas a nossa Kazu fica incompreensivelmente gemendo no microfone o tempo todo, pro nosso deleite. Muito embora ela provavelmente esteja pensando em safadices com tentáculo, eu gosto de acreditar que é mero feeling, dedicação, e no fundo que se foda, ela dá um charme todo especial pras já fantásticas composições do Blonde Redhead.


08- Sebastien Grainger



Death From Above é uma ignorância. É impossível falar da banda sem usar uma metáfora envolvendo coçar o saco, sem digitar tão forte a ponto das porras das teclas do notebook ficarem afundadas, sem começar a no meio da frase perder a vontade de formular palavras e sóklkkkdfokfwew///ds/2@@@@. Isso você lê em qualquer análise merda de música. Acabei de ouvir "não acredito que você usa meu creme pra se masturbar no banheiro" - é confrades, de 2012 não passa mesmo. DFA chama atenção de princípio pelo instrumental, e não poderia ser diferente. Mas pra mim o vocal do Grainger merece dois polegares estendidos, coçando o saco.


07- King Diamond



Posso resumir em só uma palavra: PUTA QUE PARIU!!!!


06- Isaac Hayes



Som dos anjos fazendo amor usando manteiga de lubrificante, Isaac tinha o mojo. Lembro quando ele morreu entrei em luto, passei meses sem fuder, o que pode ou não ter tido qualquer relação com a morte dele. Verdade que ouvindo além do que fica superficial, o nosso querido Chef tinha uma voz poética pra caralho. Certa vez ele pintou num puteiro, sem grana. A cafetina chegou botando ordem na porra, perguntando que merda ele estava fazendo ali. Ele apagou as luzes, disse "BITCH RIDE MY COCK". O puteiro 9 meses depois virou uma maternidade.


05- James Murphy



Algo que toda banda de garagem bosta aparentemente esquece é a necessidade de um vocalista. Não só no sentido de cantar bem, mas de ter alguma presença. O rosto da sua música vai sempre ser a interpretação vocal. O James Murphy dominava as atenções com sua voz no LCD Soundsystem, mesmo as letras não sendo aquela maravilha, ele passava por elas sempre com alguma paixão. Sua presença de palco é inegável, e ele é o herói do homem comum. Gordo, feio, desajeitado, sempre com cara de ressaca, sempre desarrumado. Comeu mais gente do que conseguimos imaginar.


04- Charlyn Marie "Chan" Marshall



Mais conhecida como Cat Power, a Chan tem uma voz delicada pacas. Sua carreira foi um pouco pro vinagre quando ela parou de beber, mas principalmente o que ela registrou em Moon Pix é mais do que o suficiente pra mim. Foda que mulher na música sofre, inevitavelmente, um tipo de preconceito bobo. Tá, ela é GATA (parêntese), mas sua (eu queria mesmo colocar um parêntese, mas esqueci o que queria falar) música não tem relação com isso. Seus trabalhos são próximos aos que fizeram Bill Callahan, Will Oldham, Jason Molina, etc. Um tipo de country/folk desolado, tipicamente americano. Vá na página do last.fm dela e veja as comparações com artistas que não tem qualquer relação com seu som, mas são todas mulheres. Aprecie a música. E aprecie essa voz.


03- Patrick Stickles



Líder do antológico Titus Andronicus, Patrick está aqui mais pelas suas letras do que pela sua voz propriamente dita. As letras do The Monitor são realmente belíssimas, infinitamente melhor do que muito livro merda que professor egocêntrico recomenda em faculdade de jornalismo como se fosse a salvação da humanidade. O conceito, misturando a guerra civil americana, fugir de New Jersey e num geral não se adaptar em lugar algum, faz todo sentido pra mim. A última frase do disco, quando, resignado, o Patrick afirma "I'd be nothing without my darling, please don't ever leave me" pra todos os seus problemas, consegue sempre me emocionar. Ei, sou do metal mas também tenho sentimentos. Por ter feito algo tão próximo a mim, eu te saúdo.


02- Jeff Mangum



A primeira coisa perceptível ao ouvir Neutral Milk Hotel é quão desafinado o vocalista é. Se fosse de qualquer forma diferente, no entanto, a banda seria uma bosta. Eu conheci NMH numa tarde, lá por 2005-2006. É aquele clichê mais batido, mas realmente abriu meus horizontes musicais. Falou comigo. Foi ali que eu decidi que ouvir música meramente "boa" não fazia qualquer sentido. Foda-se isso. Eu quero ouvir música ignorante, instintiva, irracional. Não acredito em nada diferente, me nego a ver como possibilidade. Se eu sou desafinado, por que ele não deveria ser?


01- Karin Dreijer



Ah, Karin. Seus vocais se contorcem em diversas facetas, todas estranhas, todas ameaçadoras. The Knife é a melhor banda relacionada a indie surgida nos anos 2000, de longe até. O que os irmãos Dreijer fizeram no Silent Shout devia ser tema de TCC em faculdade de enfermaria, devia ser obrigatório em casas de show, é minha playlist pra funeral. A Karin é dificilmente uma mulher bonita, mas sua voz a torna além de humana, etérea, inexistente, como um pesadelo que sentimos falta pela manhã. Nenhum outro intérprete chega perto pra mim.


Max Pênis está sentado confortavelmente em seu escritório...

segunda-feira, 18 de julho de 2011

fausto

Eu estou cansado de garotos que ainda se acham super especiais porque sabem tocar violão. A verdade é, se você botar um violão no colo de um macaco e deixar ali por umas três semanas, boas são as chances dele de aprender a tocar. Óbvio que o homem usa dessa habilidade básica pra tocar Foo Fighters tentando impressionar as garotas, o que um macaco não faria. Talvez pro isso eu goste mais de macacos do que de seres humanos. Mentira minha, eu sempre odiei macacos. Sempre achei tão bosta qualquer esforço cômico os envolvendo, sempre tão simplório. Talvez seja porque eu entrei no quarto dos meus pais e os peguei fudendo com "O Hóspede Quer Bananas" passando na televisão, talvez seja porque eu nunca consegui fechar Donkey Kong Country 2. Eu odeio macacos. Eu odeio garotos que tocam violão e se acham sentimentais. No fundo é a mesma coisa. É pessoal.


Tudo tende a me incomodar. Eu tenho um certo problema com opiniões, inclusive as minhas. Mesmo aqui eu me sinto meio Diogo Mainardi, o que é francamente terrível. Um pode argumentar que minha correção gramatical, ou total ausência dela, deveria me fazer querer ser mais como o Diogo Mainardi. Não eu. Eu quero ser mais como o Dunga. Quando o Dunga surtou na Copa chamando o nojento do Alex Escobar de nojento, eu vibrei. Disse pra minha mãe que concordava, e que esperava que um dia o Escobar tomasse uma facada bem no meio daquela careca escrota. Ela só balançou a cabeça, disse "pare de ser igual ao seu pai" e num geral me ignorou. Mas a dedicação do Dunga de ignorar a opinião pública me tocou. Qualquer forma de dedicação parece bonita relativa ao contexto, poderia ter sido mais fácil mas pra que? Foda-se tudo, se tudo é tão bosta por que não deixar isso bem claro? Eu não quero ser normal e tocar Foo Fighters no violão, quero escrever sobre esfaquear pessoas mesmo eu sendo entediantemente inofensivo.


Irritante.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

imperícia

Eu estava sentado na varanda do meu sítio quando um estranho se aproximou. Carregando consigo uma mala marrom, ele andou lentamente. Eu estranhamente o reconheci, embora não tenha conseguido localizar na minha memória.

- Bom dia - ele disse, se aproximando cada vez mais de onde eu estava. Largou a mala, botou a mão no bolso e tirou um cigarro.
- Precisa de fogo? - ei, minha mãe sempre disse pra eu ser prestativo.
- Você não sabe quem eu sou? Você não se lembra daquelas noites? - ele tinha um bigode bem cinza, seu rosto estranhamente era mais jovem do que deveria ser.
- Perdão, minha cabeça está ficando fraca de tanto tempo sozinho...
- Difícil de te culpar.
- Mas quem é você?
- Lembra quando você queria ganhar dinheiro? E, subitamente, te apareceu a idéia de criar uma música que foi sucesso no verão de 2012, o axé Robô do Amor.
- Claro, é o que pagou por isso tudo.
- Pois bem, meu caro, lembra quando uma noite você chegou em casa bêbado, desesperado por outra desilusão amorosa, pensou em vender sua alma em troca do sucesso que lhe traria alguma elusiva paz de espírito.
- Não claramente, como você saberia disso?
- Simples: eu não funciono como 0800, você não precisa vir a mim.
- Okay, senhor, eu aprecio uma brincadeira como todo mundo, mas preciso pedir-lhe que acelere o seu passo na explicação real da sua visita.
- Pequeno João, você não se lembra como você corria pra deitar na cama, rezando pra que eu não estivesse embaixo dela? Curiosamente, não havia lugar melhor pra mim.
- Eu...
- E aquela vez que você abraçou seu cachorro na noite pedindo que nenhum outro viesse pra te fazer ameaças de morte nos seus sonhos? Eu me diverti tanto aquele dia.
- Você... Se divertiu?
- Qual sua dificuldade de lógica? Se você andar logo eu não rasgo a buceta da sua mãe quando chegarmos em casa, meu filho.
- Deus, que porra é essa?
- Deus é todo o clichê de diálogo bosta envolvendo o diabo. Eu? Eu sou o cara que teve a chance de estuprar e arrebentar o cu selado virgem da sua irmã. E não pense que ela não gostou, todas as noites pedindo por mais.
- Você não sabe que minha irmã se matou.
- Claro que eu sei, eu estava lá! De camarote! Quando a fumaça da arma baixou, quem você acha que foi o primeiro rosto que ela viu? Agora todo dia eu passo por ela, ela virou uma árvore tão linda no meu jardim, aonde eu talhei seu nome pra cada dia que você estava ausente.
- Senhor, eu não gosto dessa conversa. Vou pedir que me ajude a manter meu grau de cordialidade, só vá embora e fingimos que nada disso aconteceu.
- Mas aconteceu! Venha me dar um abraço e conheça sua casa verdadeira - meu corpo se levantou contra a minha vontade.

Eu estava sentado na varanda do meu sítio assistindo o filme do Bruno Mazzeo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

sobre elvis presley, michael jackson e digimon



Eae pessoal!!!! Hoje foi um dia muito bacana, mas eu venho aqui pra falar de algo muito sério. O que as eternas obras idiotas estão fazendo com a paradisíaca cidade de Itajaí-SC? Hoje mais cedo fui buscar minha testosterona de búfalo (e agora estou testando uma nova inovação no mercado, progesterona de rinoceronte e também noradrenalina de anta), passei por um daqueles tratores e o cara que devia estar trabalhando tava sentadão comendo um xis-filé. Assim não deu! Tirei a camisa e comecei a porrar de leste a oeste, quando apareceu a polícia. Por sorte o policial maromba na mesma academia que eu, então ele me liberou com só 100 abdominais.


Mais tarde fui passar na casa da Adrielly, que bucetinha!!! Ela admirou meu corpo por longos minutos enquanto eu bombava cada vez mais profundamente. Que sensação! Fui voltar pra casa e advinha o que estava lá? A porra da obra. Pessoal, vocês acompanham seus candidatos? Você sabe que você pode acompanhar pelo site da câmara (http://www2.camara.gov.br/), é muito importante não perder de vista o que quem ganhou se voto está fazendo esses dias! Caso contrário, você jogou fora seu voto, e é exatamente assim que o Esperidião Amin não se elege mais pra porra nenhuma. Não é um absurdo? Aposto que com ele a porra da obra não estaria parada.


Então façam valer sua vontade. Não só aceitem o que políticos safados te falam, lutem pelos seus direitos. Ninguém mais vai fazer isso por vocês né, e se a gente não se unir aquela porra daquela obra nunca vai ficar pronta. Aí você pega fila de meia hora pra academia, de 2 pra comprar suprimento, de 3 pra comer um cuzinho, aonde essa caralha desse mundo vai parar? Isso me deixa tão bravo que tenho vontade de ligar pra galera ameaçando de morte.

domingo, 26 de junho de 2011

sobre melancolia e melancia

Existe uma dor no meu estômago pra cada soco que não foi dado. Existe uma lamentação no meu coração pra cada beijo que foi desperdiçado. Até aqui, né. Até aqui... E em minha mente cada memória não vivida, cada impacto não sentido. Em cada passo da minha vida, cada briga ausente sem sentido.


Queria fazer uma ficção sobre cada despedida perdida. Existe algo de estranho em cada drama de garoto rico incompreendido, talvez seja tarde demais pra perder a cabeça nisso. Hoje é só o amanhã que me preocupa. Não há um adeus pro meu olá, ou talvez só eu percebo essas coisas. Só eu vejo o detalhe minúsculo. Sobre como dor não é algo físico, não existe linearidade na agonia. Os fogos de artífico na grama molhada aonde eu fiz tantos planos, o que aconteceram com vocês?


Na TV passava um filme grosseiro sobre um molusco gigante assassino, e um dos mocinhos se salvou numa prancha de surf. Eu sempre achei surf tão idiota. Como eu sou o mais idiota de todos, eu tenho uma certa dificuldade em apreciar a idiotice alheia. Talvez esse seja meu problema. Talvez meu problema foi não ter tentado ir pra dança. Ou talvez seja minha eterna necessidade de focar na falta de foco. Perguntei pra minha mãe como eu estava. Ela disse:


- Garoto, você conseguiu. Arrume um novo coração pra se quebrar, porque seu velho não tem mais pedaços.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

minha cabeça grávida

Suas roupas estavam rasgadas, espalhadas pela escada. Havia um rastro de sangue que aparentemente não levava pra lugar nenhum. A inocência que foi perdida quando eles vieram. Como cada passo denunciava o que estava por vir. Ninguém se importou, eu acho. Ventava aquela noite, ela estava sozinha em casa quando um grupo de maníacos arrombou sua porta. Como um beijo súbito, eles sumiram com sua roupa. Os gritos ecoavam pela parede. Tantas mãos. Ela estava no chão enquanto eles faziam turnos, o que mostra que pelo menos o cavalheirismo não acabou. Seu corpo desistia dela, não mais dor seria sentida. Não mais dor seria sentida. Arrastaram-na para o topo da escada. Os segundos se tornaram longos rituais. Trouxeram pra fora tudo que estava dentro. Enfiaram um copo e retiraram caco de vidro por caco de vidro, o sangue neles parecia alienígena. Ela foi deixada lá para morrer, mas ei, pelo menos ouvi dizer que ia dar praia.

terça-feira, 21 de junho de 2011

sobre pesadelos e metas de vida

"Acorde", ela gritou. Eu estava voltando pela rua, tentando lembrar de onde estava vindo. Perdido numa multidão sem conseguir levantar meus olhos, eu não sei porque eu estou aqui. Aponto meu dedo pra um milhão de pessoas, o vento não cessa de me levar em círculos. Interrupção.


Minha cabeça estava na grama, abri os olhos e várias pessoas me cercavam rindo. Dormir numa festa já foi mais respeitado. Mas o problema é levantar sem direção. Pessoas estavam dançando, não havia música. Havia alguma alegria que não foi necessariamente compartilhada comigo, eu comecei a me sentir trágico. Como a música, sabe. Comendo minhas unhas de almoço, voando por meus cigarros, um por um. Um por um. Eu quero me encontrar de novo. Fugir pela praia, achar o tal lugar secreto aonde ninguém gosta de musical. Aonde ninguém acha que ninguém conhece os Beatles. Quão burro sou eu?


Ela perguntou se eu lembrava de onde estava. Eu disse que essas coisas não se esquecem, "substitua minha memória irrelevante com algo que eu goste de lembrar". Ela chorou. Seu rosto se desfigurou. Começou a sumir. Eu sonhei com minha mãe sendo estuprada, ele me forçou a assistir. Não consegui encarar a manhã. Tire meus medos.

domingo, 19 de junho de 2011

sobre perder o sono

Então é isso, lobo. Você me rasgou até eu achar conforto. Quantos meses você morou na minha casa? Esperando silenciosamente no canto, se escondendo em cada sombra, observando cada momento de fraqueza meu. Você toma meu sangue, destrói meus ossos, retalha meu cérebro, desfia meus sonhos. Foi uma manhã fria, eu estava queimando na cama ouvindo o som de alguma igreja distante. Eu nunca vi o eclipse da lua. Então quando eu fugi aquela noite eu estava sozinho contra as estrelas. Nenhuma voz me acompanhou. Mas você estava lá. Você sempre esteve lá.


Quando voltei pra casa aonde eu cresci ela não era mais uma casa. Era um espaço. Havia essa pessoa no meio, eu me aproximei. Ele não tinha olhos, somente grandes círculos cartunescos brancos. O sorriso. O sorriso. Eu saí ontem a noite pra esquecer, mas certas coisas nunca me fogem. A porta do meu passado sempre me esmaga na parede. Eu caminho pelo inferno mais silencioso possível. Estou fazendo qualquer sentido? Quando vi ao longe não consegui parar de encarar. "Você vai esquecer", ela disse. "Você vai ignorar", ela disse. "Você nunca vai conseguir escapar", ela disse. E minhas visões de um céu decadente, aonde foram parar?


Aplausos me cercam na minha última hora. Nesse meu último momento. Crianças correm em direção ao sol, o som lentamente morre com a luz. Eu tive um sorriso pra todos que eu conheci. E nessa hora que tudo está confuso, eu sinto meu sangue desistindo. Enquanto o lobo rasga tudo. Enquanto minha corda acaba. Enquanto as pessoas esquecem de tirar fotos. Enquanto o silêncio se torna barulhento demais. Enquanto eu batalho cada vez mais pra fazer menos sentido.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

about my life with the thrill kill kult






Hello-hi. My name is Lexi Belle and I'm here to promote a very special cause. Do you know that mongolian kids suffer all kinds of abuse from their parents, including unrequested sexual advances and cyber-bullying. It's true, it's also very sad. Almost as sad as people still liking Foo Fighters up to this year. I mean, what the fuck is wrong with you? Fuck the mongolian kids, but Foo Fighters? No wonder we've never been so close to the apocalypse as we are right now. I think David Grohl is also quite fond of kids regardless of country, but I digress. People who donate to the aid of the mongolian kids will get a chance to fuck me. Don't take it personally, but I'll only accept big dicks. And I mean big stuff, then you can do whatever the fuck you want. You can have hairy balls, can be into S & M, bring your pregnant lady so we can whip her, finger bangs, bestiality, she-males whatever. With a big hard throbbing cock you can shit on my face and I'll lick it like motherhumpin ice cream. Let's Butt-bang for the children. Oh, and no Village People-style 'stache. Shit's gay niggas.

Love,
Lexi.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

sobre convidados especiais parte 4, a batalha final



Olá, acredito que vocês já saibam que eu sou nesse ponto. Se esse meu texto chegou até seus olhos provavelmente quer dizer que eu não estou mais entre vocês. O que eu posso dizer, eu tive uma boa estrada mas cheguei no meu destino. Cheguei? Não há uma noite que eu não sonho com as mulatas de outrora. Elas lambem meu corpo inteiro. Acordo só pra constatar minha terrível dor nas costas. Esses dias fui fazer um concerto, fui terrivelmente vaiado. Não num sentido cômico Carlinhos Brown, mas foi algo bem sério. Eu me senti odiado. Desprezado. Velho. Acabado. O que aconteceu com a gentileza do ser humano? Por que todo cara sem graça se acha a pessoa mais engraçada do mundo por saber reciclar piadas? Não parece um mundo aonde eu queira viver. Não mais.


Então tracei meu plano perfeito. Meu plano mais perfeito. O problema era executar. Eu nunca tive medo da morte. Como notório crente em Deus, eu acredito que tudo termina. Sem mais delongas. O descanso sem fim, o eterno vazio, o vazio preenchendo aonde não havia espaço. Eu quero entregar minha cabeça, ser a pessoa mais inteligente que eu conheço se provou na verdade solitário. Todos os dias pensando demais em cada vez menos assuntos. A ausência do abismo pra encarar. O frio que ficou. Tudo. Eu estagnei no meu castelo de solidão, quero voltar a dormir.


Então fica aqui minha despedida. Eu liguei já o gás e tranquei tudo, escrevo isso e deixo salvo pro meu amigo Marcelo mandar como um último adeus. Como uma última lembrança. Fiquem com Deus, lembrem-se que sem ele ninguém chega a ele. Vou sem culpa. Nesse ponto eu acho que eu estou quebrado demais até pra chorar. Meus filhos ilegítimos, espero que vocês cresçam e tenham orgulho de mim. Minhas ex-mulheres, pra vocês ficam meu grande "vai se fuder". E pros meus fãs... Ah, pros meus fãs. Eu os amei, Deus, eu os amei, eu os amei, eu os amei, eu os amei, eu os amei.

terça-feira, 31 de maio de 2011

sobre convidados especiais parte 3, a vingança



Olá meus irmãos, como vão todos nessa ensolarada tarde de terça-feira? Eu sou o Nelson Ned, volto aqui nesse espaço pra divulgar uma causa importante. Eu estava deitadão nos meus aposentos quando liguei a TV e estava passando Houve Uma Vez Dois Verões. Que porra é aquela? Meu cérebro desligou eventualmente nas péssimas atuações, tive um pesadelo com a protagonista enfiando um copo em um lugar delicado, retirando caco de vidro por caco de vidro depois. Acordei-me suando, levantei e corri até a cozinha. Ainda alucinando com o enredo medonho do filme, meu telefone decidiu tocar. Era uma ex-mulher minha, pediu pra que eu ligasse a TV. Deparei-me com a Ana Maria Braga fazendo um monólogo enorme, pedindo desculpa pelo flagra que deram nela agarrada numa zebra no zoológico. Explicou que tinha achado algo sujo no meio das pernas dela, que tentou limpar com as mãos só que não saiu, o que a fez usar a boca. Pareceu convincente o suficiente. E me fez pensar em algo realmente profundo.


Desloquei-me até a padaria na esquina, fui falar com seu Manoel sobre tudo aquilo. Ele disse "Nelson, meu velho, quando você pretende me devolver aquela fita da Sula Miranda?". Tudo nesse mundo é cobrança. Ninguém nunca me procura pra contar que eu ganhei uma herança, é só dívida. Por que o mundo é assim? Minha mãe já dizia que as mulheres vão me procurar meramente pelos meus dotes físicos, e depois de sugar meus fluidos com um canudinho elas me deixaram desesperadamente jogado na calçada. Acho que não posso reclamar!


Em 1979, eu viajei pra Cuba. Foi foda de entrar, foi fácil ter vontade de sair. Cantei bolero pra multidão ensandecida, essa garota me olhava de longe. Ela era linda. Sua pele morena, seu corpo violão, sua arcada dentária ausente. Nossos corpos pegaram fogo naquela noite. Ela olhou pra mim depois do ato, disse algo em espanhol. Eu respondi "je n'avais pas qu'un seul mot a lui dire", virei pro lado e botei minha roupa. Ainda lembro do jeito que seu corpo tremeu junto ao meu, como eu tive que salvá-la antes que ela engolisse a língua. Lágrimas.