segunda-feira, 18 de julho de 2011

fausto

Eu estou cansado de garotos que ainda se acham super especiais porque sabem tocar violão. A verdade é, se você botar um violão no colo de um macaco e deixar ali por umas três semanas, boas são as chances dele de aprender a tocar. Óbvio que o homem usa dessa habilidade básica pra tocar Foo Fighters tentando impressionar as garotas, o que um macaco não faria. Talvez pro isso eu goste mais de macacos do que de seres humanos. Mentira minha, eu sempre odiei macacos. Sempre achei tão bosta qualquer esforço cômico os envolvendo, sempre tão simplório. Talvez seja porque eu entrei no quarto dos meus pais e os peguei fudendo com "O Hóspede Quer Bananas" passando na televisão, talvez seja porque eu nunca consegui fechar Donkey Kong Country 2. Eu odeio macacos. Eu odeio garotos que tocam violão e se acham sentimentais. No fundo é a mesma coisa. É pessoal.


Tudo tende a me incomodar. Eu tenho um certo problema com opiniões, inclusive as minhas. Mesmo aqui eu me sinto meio Diogo Mainardi, o que é francamente terrível. Um pode argumentar que minha correção gramatical, ou total ausência dela, deveria me fazer querer ser mais como o Diogo Mainardi. Não eu. Eu quero ser mais como o Dunga. Quando o Dunga surtou na Copa chamando o nojento do Alex Escobar de nojento, eu vibrei. Disse pra minha mãe que concordava, e que esperava que um dia o Escobar tomasse uma facada bem no meio daquela careca escrota. Ela só balançou a cabeça, disse "pare de ser igual ao seu pai" e num geral me ignorou. Mas a dedicação do Dunga de ignorar a opinião pública me tocou. Qualquer forma de dedicação parece bonita relativa ao contexto, poderia ter sido mais fácil mas pra que? Foda-se tudo, se tudo é tão bosta por que não deixar isso bem claro? Eu não quero ser normal e tocar Foo Fighters no violão, quero escrever sobre esfaquear pessoas mesmo eu sendo entediantemente inofensivo.


Irritante.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

imperícia

Eu estava sentado na varanda do meu sítio quando um estranho se aproximou. Carregando consigo uma mala marrom, ele andou lentamente. Eu estranhamente o reconheci, embora não tenha conseguido localizar na minha memória.

- Bom dia - ele disse, se aproximando cada vez mais de onde eu estava. Largou a mala, botou a mão no bolso e tirou um cigarro.
- Precisa de fogo? - ei, minha mãe sempre disse pra eu ser prestativo.
- Você não sabe quem eu sou? Você não se lembra daquelas noites? - ele tinha um bigode bem cinza, seu rosto estranhamente era mais jovem do que deveria ser.
- Perdão, minha cabeça está ficando fraca de tanto tempo sozinho...
- Difícil de te culpar.
- Mas quem é você?
- Lembra quando você queria ganhar dinheiro? E, subitamente, te apareceu a idéia de criar uma música que foi sucesso no verão de 2012, o axé Robô do Amor.
- Claro, é o que pagou por isso tudo.
- Pois bem, meu caro, lembra quando uma noite você chegou em casa bêbado, desesperado por outra desilusão amorosa, pensou em vender sua alma em troca do sucesso que lhe traria alguma elusiva paz de espírito.
- Não claramente, como você saberia disso?
- Simples: eu não funciono como 0800, você não precisa vir a mim.
- Okay, senhor, eu aprecio uma brincadeira como todo mundo, mas preciso pedir-lhe que acelere o seu passo na explicação real da sua visita.
- Pequeno João, você não se lembra como você corria pra deitar na cama, rezando pra que eu não estivesse embaixo dela? Curiosamente, não havia lugar melhor pra mim.
- Eu...
- E aquela vez que você abraçou seu cachorro na noite pedindo que nenhum outro viesse pra te fazer ameaças de morte nos seus sonhos? Eu me diverti tanto aquele dia.
- Você... Se divertiu?
- Qual sua dificuldade de lógica? Se você andar logo eu não rasgo a buceta da sua mãe quando chegarmos em casa, meu filho.
- Deus, que porra é essa?
- Deus é todo o clichê de diálogo bosta envolvendo o diabo. Eu? Eu sou o cara que teve a chance de estuprar e arrebentar o cu selado virgem da sua irmã. E não pense que ela não gostou, todas as noites pedindo por mais.
- Você não sabe que minha irmã se matou.
- Claro que eu sei, eu estava lá! De camarote! Quando a fumaça da arma baixou, quem você acha que foi o primeiro rosto que ela viu? Agora todo dia eu passo por ela, ela virou uma árvore tão linda no meu jardim, aonde eu talhei seu nome pra cada dia que você estava ausente.
- Senhor, eu não gosto dessa conversa. Vou pedir que me ajude a manter meu grau de cordialidade, só vá embora e fingimos que nada disso aconteceu.
- Mas aconteceu! Venha me dar um abraço e conheça sua casa verdadeira - meu corpo se levantou contra a minha vontade.

Eu estava sentado na varanda do meu sítio assistindo o filme do Bruno Mazzeo.