quarta-feira, 31 de agosto de 2011

todas as garotas choram


Nosso protagonista Charles fora atropelado naquela tarde. Ele não viu o carro, devia ter sido um vermelho – afinal, vermelho era sua cor desde o desfile de 1ª série nas olimpíadas do colégio interno. Sua namorada havia saído para uma viagem com seu primo, Jorge, mesmo Charles desconfiando do grau de parentesco, afinal, sua digníssima não tinha praticamente nada de latina em seu sangue. Jorge era um jovem esguio, bigodes amplos estampavam seu fino rosto, cabelo com corte militar repartido ao meio, feição de algo que você normalmente veria no Discovery Channel. Charles mancava pela avenida, todo o seu público aparentemente decidiu ignorar sua contusão, era meio patético. Ele nunca crescera um bigode, jamais uma barba, não chegou a ter uma jaqueta de couro. Socialmente inapto, Charles trabalhava numa sorveteria, aonde o seu sabor favorito, de pistache, encontrava-se permanentemente fora de estoque. Ele estava vindo de lá, encarando o trânsito e as obras, estampado com seu uniforme branco e rosa ridículo – ao qual ele mesmo se referia como “minha fantasia de Carlinhos de Jesus”, o que não podia ser mais apropriado – ignorante aos acontecimentos matinais, tentando se manter despreocupado. Seu cachorro, o Sussa, estava com algum tipo bizarro de pneumonia, passava seus dias tossindo e melancólico.

Manquitolando em direção a algo, Charles então começara a se perguntar sobre seu sobrenome. Claramente ele devia ter um, ainda assim foi algo que passou despercebido pela minha cabeça. “Pinheiro” parecia uma boa escolha, mas ainda assim nunca entendi qual era o lance disso. Exercício frugal, embora que nessa altura tudo parecia fútil na cabeça do nosso herói. O sol brilhava cada vez mais, nem era verão mas o calor estava evidente, como uma música ruim idolatrada por nenhum motivo conhecido. Era um pouco demais. “Por que ela fizera isso?”, era a pergunta que não escapava da sua cabeça. Pessoas tendem a entrar e sair da sua vida, mas por que ele não tinha um voto sobre a segunda ação? Parecia injusto. Ele queria chegar em casa, ver seu cachorro sorrindo, com balões espalhados por todos os cômodos, sorrisos rosados e graciosos pintados em todo corredor. Não havia muito disso esses dias.

A primeira queda. Como um boxeador ignorando todos os limites de seu corpo, nosso amado protagonista se pôs sob seus pés novamente. Ainda, perguntas não o deixavam. Como Jorge estava se sentindo agora? Ele estava a beijando? Lambendo? Mordendo e arrancando pedaço, do sangue que Charles nunca provara? Uma garota o interpelou, perguntou se ele queria participar da promoção do dia dos pais de uma operadora de celular. Era essa época de novo. Charles suava como um burro cansado. “Eu não comprei meu Mac!”, e tentou correr ignorando o caminho. Cicatrizes são a mais óbvia expressão de dor, mas são as marcas internas que realmente nos matam. O sangue começou a encharcar o uniforme branco e rosa horrível. A segunda queda.

Quando Charles abriu a porta, o Sussa veio o receber. Seu rabo abanando como um autêntico ventilador foi uma revelação. Tudo estava bem. Jorge se encontrava empalado, ao lado da TV, o simbolismo pareceu claro demais. A música começou a ecoar no ar, ó dias passados ao doce som de Kenny G! Você tem que admirar alguém que se nomeia pelo nome do ponto feminino mais mistificado. Sua namorada o esperava na cama, com pequenas flores jogadas pelo quarto. Vela com aroma de frutas, tão cítrico nessa estação! Toda a cena estava suculenta, como um bife recém-tirado de sua manteleta, o que não faz sentido e é, francamente, um pouco nojento, mas pareceu uma boa alusão na hora. Uma casa feliz com sonhos felizes. Charles se sentou ao lado de sua mulher, e começou a contar todos os seus planos, enquanto a luz se apagava.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

título

Diário. A cidade cheira a essência de sauna, todas as pessoas se limitam a lustrar latas de lixo. Trouxe, mãe, não precisa levantar. Minhas músicas ainda são as mesmas, acho que posso dizer que não mudei tanto. João acordou somente para encarar o céu assustador ao seu redor, na janela sua avó esquecia as frases na metade. Eu estava no meio da rua quando vozes me cercaram, nunca realmente se aproximando, só quando as luzes morreram. Valsa. Padaria que oferece punheta no cardápio. Sou pra sempre uma propaganda ruim num programa de auditório chato. A garota está morta, nenhum Deus nunca pode te ajudar, não existem gigantes que merecem a morte, o jardim secreto foi uma invenção. Ouço um espirro saindo do meu armário. Caveiras mexicanas dançando. Ainda não há muito em mim que eu respeito. Não quero esquecer, como num liquidificador de memórias. Lucidez. Amor esquenta. Espelho. Anagrama. Seja você de novo outras vezes. Lucidez. Na janela sua avó esquecia as frases na metade. Netuno não está logo ali, queria jogar boliche de video-game mais uma vez. Estamos dançando agora, enquanto nossos pés param de tocar o chão. Não há diálogos, não sei usar aspas, porra nem vírgulas. Acho que - acredito que - eu talvez deveria tentar - conseguir,. João acordou somente para ! Porra de estrelas cadentes, sonhos com, rodas gigantes meu parque de diversão secreto. noturno, cheio de gente que eu não conheço e - completamente perdido no senso de tempo espaço... Eu consegui, escapar do castelo, escapar do castelo escapar do, castelo. Exercício lamentável da minha parte. Punheta que oferece padaria no cardápio. Abri a geladeira, falou comigo minhas. Mãos não tocam mais meu rosto. Discos esquecidos arranhados se repetindo aquele armazém tem um. Lobisomem que empala garotas. Sonhos com o cachorro sorrindo. Ouço um liquidificador do meu armário a morte, o jardim secreto foi uma invenção. Mar perdido .                                     !

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

humanae mundique fictione

Encha meu copo, minha cabeça nunca cansa de estar vazia,
cansei dos rostos me seguindo pela areia, cansei da areia
tocando em meus pés enquanto eu finjo não estar pensando
em tudo aquilo de novo, tudo aquilo de novo, você sabe do que falo?

Eu lembro da noite vermelha, Mariana;
foi quando eu te carregei pelas ruas, você desmaiada, bêbada, desesperada,
seu rosto se contorcendo em cada pensamento nunca a ser revelado,
sua boca cortada em diversos pedaços, sem qualquer expressão,
seu coração partido em cortes, sem qualquer esperança,
sem qualquer alívio, qualquer pausa, qualquer perspectiva,
foi quando eu sorri pra ver seu sorriso, nada a ser revelado,
eu vi você daquele jeito tantas vezes, tantas vezes,
não há até hoje um dia em que eu não olhe pras minhas mãos
e as queira em volta do seu pescoço,
apertando cada vez mais, apertando até não haver o que apertar,
e eu te jogaria no chão, daonde você nunca devia ter saido,
pegaria a primeira pedra e te esmagaria até não sobrar mais,
até você não poder voltar pra me culpar pela minha distância,
pela minha indiferença, nunca foi indiferença,
nunca me culpe disso, eu não sou indiferente,
eu sou uma porra dum turista na pior cidade do mundo,
o que você acha que sabe?
Todos os garotos ignoram isso, eu não consigo, eu nunca consegui,
é tudo aquilo de novo, sabe, é o que eu mencionei sem citar,
o que expliquei sem usar qualquer palavra conhecida pelo homem, a melancolia no silêncio.

Quando o vento parou estava chuvendo na praia,
minha cabeça não voltou do lugar mais estranho para o qual ela já foi
para o qual ela ousou ir, me contrariando de novo.
Eu vi de tudo, eu vi de tudo, perdido em estar perdido no meu mundo,
foi quando eu ouvi sua voz,
foi quando você me disse "olá" e eu só consegui ouvir "adeus",
foi quando eu inventei todos meus contextos, todo meu passado.
Eu não vi nada, eu nunca vi nada,
eu não saberia dizer como se sente não ser aleijado por mim mesmo,
eu estou fudido desde o útero, desde o conceito inicial,
não parece que vou me infuder no futuro,
não vejo nenhum machucado, nenhuma maldade, meus bonecos ainda estão guardados,
esperando que eu me renda, sabendo que eu vou.

Não luto por uma porra de uma revolução, não luto por lutar nada,
foda-se quem se acha especialista em tudo,
foda-se quem acha que deve me aconselhar em tudo aquilo que eu não controlo,
foda-se quem corre as ruas clamando ser diferente,
foda-se quem se nega a ignorar o mistério em tudo,
foda-se quem julga ser mais inteligente do que eu,
foda-se eu, acima de tudo.

Encontre-me em qualquer lugar e em qualquer hora da noite,
enxuge meu rosto, dance comigo,
sinta meu coração disparando em qualquer menção de algo poder estar errado,
ouse por mim que nem eu faria por você,
olhe nos meus olhos e me convença que a manhã nunca virá,
que essa noite não tem como acabar, que não pode acabar,
escape comigo da minha tempestade invisível.

Encha meu copo, minha cabeça nunca cansa de estar vazia,
eu sou o que sobraria deles quando meu plano estivesse completo,
encostado sem direção no muro de um terreno baldio,
vadio sem expressão num pulo escondido,
porque não há como desfazer cada coisa estúpida que fazemos,
meus fantasmas sempre voltam pra me estuprar silenciosamente,
como num grito, num espanto, num medo,
eu vivo e morro por isso tudo, vivo e morro por isso tudo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

top 10 - vocalistas

Odeio parágrafo de abertura de Top. Pra mim ou é anedota envolvendo um detetive chamado Max Pênis ou o rolê não fez sentido. Vou me limitar.

Menções honrosas: Nelson Ned.


10- Otis Redding



Eu tenho uma teoria que negros, de uma forma geral, conseguem imprimir muito mais sentimento na voz do que brancos. É questão cultural. E, muito embora possa parecer racismo, isso realmente transparece, ficando bem evidente com o nosso amigo Otis. Morreu cedão e mal, mas enquanto vivo comia todo mundo, nunca deu uma broxada, espantando as fêmeas com sua jurubeba tamanho bem grande. Seu tom era sempre perfeito, suas músicas são pra dançar juntinho com a pessoa em questão.


09- Kazu Makino



Um amigo meu certa vez apresentou uma brilhante ideia sobre como comer uma japonesa seria uma boa, afinal, elas tem o CANAL VAGINAL teoricamente mais APERTADO. Não sei que sentido tem isso, até porque não comi uma japonesa na minha vida. Mas a nossa Kazu fica incompreensivelmente gemendo no microfone o tempo todo, pro nosso deleite. Muito embora ela provavelmente esteja pensando em safadices com tentáculo, eu gosto de acreditar que é mero feeling, dedicação, e no fundo que se foda, ela dá um charme todo especial pras já fantásticas composições do Blonde Redhead.


08- Sebastien Grainger



Death From Above é uma ignorância. É impossível falar da banda sem usar uma metáfora envolvendo coçar o saco, sem digitar tão forte a ponto das porras das teclas do notebook ficarem afundadas, sem começar a no meio da frase perder a vontade de formular palavras e sóklkkkdfokfwew///ds/2@@@@. Isso você lê em qualquer análise merda de música. Acabei de ouvir "não acredito que você usa meu creme pra se masturbar no banheiro" - é confrades, de 2012 não passa mesmo. DFA chama atenção de princípio pelo instrumental, e não poderia ser diferente. Mas pra mim o vocal do Grainger merece dois polegares estendidos, coçando o saco.


07- King Diamond



Posso resumir em só uma palavra: PUTA QUE PARIU!!!!


06- Isaac Hayes



Som dos anjos fazendo amor usando manteiga de lubrificante, Isaac tinha o mojo. Lembro quando ele morreu entrei em luto, passei meses sem fuder, o que pode ou não ter tido qualquer relação com a morte dele. Verdade que ouvindo além do que fica superficial, o nosso querido Chef tinha uma voz poética pra caralho. Certa vez ele pintou num puteiro, sem grana. A cafetina chegou botando ordem na porra, perguntando que merda ele estava fazendo ali. Ele apagou as luzes, disse "BITCH RIDE MY COCK". O puteiro 9 meses depois virou uma maternidade.


05- James Murphy



Algo que toda banda de garagem bosta aparentemente esquece é a necessidade de um vocalista. Não só no sentido de cantar bem, mas de ter alguma presença. O rosto da sua música vai sempre ser a interpretação vocal. O James Murphy dominava as atenções com sua voz no LCD Soundsystem, mesmo as letras não sendo aquela maravilha, ele passava por elas sempre com alguma paixão. Sua presença de palco é inegável, e ele é o herói do homem comum. Gordo, feio, desajeitado, sempre com cara de ressaca, sempre desarrumado. Comeu mais gente do que conseguimos imaginar.


04- Charlyn Marie "Chan" Marshall



Mais conhecida como Cat Power, a Chan tem uma voz delicada pacas. Sua carreira foi um pouco pro vinagre quando ela parou de beber, mas principalmente o que ela registrou em Moon Pix é mais do que o suficiente pra mim. Foda que mulher na música sofre, inevitavelmente, um tipo de preconceito bobo. Tá, ela é GATA (parêntese), mas sua (eu queria mesmo colocar um parêntese, mas esqueci o que queria falar) música não tem relação com isso. Seus trabalhos são próximos aos que fizeram Bill Callahan, Will Oldham, Jason Molina, etc. Um tipo de country/folk desolado, tipicamente americano. Vá na página do last.fm dela e veja as comparações com artistas que não tem qualquer relação com seu som, mas são todas mulheres. Aprecie a música. E aprecie essa voz.


03- Patrick Stickles



Líder do antológico Titus Andronicus, Patrick está aqui mais pelas suas letras do que pela sua voz propriamente dita. As letras do The Monitor são realmente belíssimas, infinitamente melhor do que muito livro merda que professor egocêntrico recomenda em faculdade de jornalismo como se fosse a salvação da humanidade. O conceito, misturando a guerra civil americana, fugir de New Jersey e num geral não se adaptar em lugar algum, faz todo sentido pra mim. A última frase do disco, quando, resignado, o Patrick afirma "I'd be nothing without my darling, please don't ever leave me" pra todos os seus problemas, consegue sempre me emocionar. Ei, sou do metal mas também tenho sentimentos. Por ter feito algo tão próximo a mim, eu te saúdo.


02- Jeff Mangum



A primeira coisa perceptível ao ouvir Neutral Milk Hotel é quão desafinado o vocalista é. Se fosse de qualquer forma diferente, no entanto, a banda seria uma bosta. Eu conheci NMH numa tarde, lá por 2005-2006. É aquele clichê mais batido, mas realmente abriu meus horizontes musicais. Falou comigo. Foi ali que eu decidi que ouvir música meramente "boa" não fazia qualquer sentido. Foda-se isso. Eu quero ouvir música ignorante, instintiva, irracional. Não acredito em nada diferente, me nego a ver como possibilidade. Se eu sou desafinado, por que ele não deveria ser?


01- Karin Dreijer



Ah, Karin. Seus vocais se contorcem em diversas facetas, todas estranhas, todas ameaçadoras. The Knife é a melhor banda relacionada a indie surgida nos anos 2000, de longe até. O que os irmãos Dreijer fizeram no Silent Shout devia ser tema de TCC em faculdade de enfermaria, devia ser obrigatório em casas de show, é minha playlist pra funeral. A Karin é dificilmente uma mulher bonita, mas sua voz a torna além de humana, etérea, inexistente, como um pesadelo que sentimos falta pela manhã. Nenhum outro intérprete chega perto pra mim.


Max Pênis está sentado confortavelmente em seu escritório...