Então é isso, lobo. Você me rasgou até eu achar conforto. Quantos meses você morou na minha casa? Esperando silenciosamente no canto, se escondendo em cada sombra, observando cada momento de fraqueza meu. Você toma meu sangue, destrói meus ossos, retalha meu cérebro, desfia meus sonhos. Foi uma manhã fria, eu estava queimando na cama ouvindo o som de alguma igreja distante. Eu nunca vi o eclipse da lua. Então quando eu fugi aquela noite eu estava sozinho contra as estrelas. Nenhuma voz me acompanhou. Mas você estava lá. Você sempre esteve lá.
Quando voltei pra casa aonde eu cresci ela não era mais uma casa. Era um espaço. Havia essa pessoa no meio, eu me aproximei. Ele não tinha olhos, somente grandes círculos cartunescos brancos. O sorriso. O sorriso. Eu saí ontem a noite pra esquecer, mas certas coisas nunca me fogem. A porta do meu passado sempre me esmaga na parede. Eu caminho pelo inferno mais silencioso possível. Estou fazendo qualquer sentido? Quando vi ao longe não consegui parar de encarar. "Você vai esquecer", ela disse. "Você vai ignorar", ela disse. "Você nunca vai conseguir escapar", ela disse. E minhas visões de um céu decadente, aonde foram parar?
Aplausos me cercam na minha última hora. Nesse meu último momento. Crianças correm em direção ao sol, o som lentamente morre com a luz. Eu tive um sorriso pra todos que eu conheci. E nessa hora que tudo está confuso, eu sinto meu sangue desistindo. Enquanto o lobo rasga tudo. Enquanto minha corda acaba. Enquanto as pessoas esquecem de tirar fotos. Enquanto o silêncio se torna barulhento demais. Enquanto eu batalho cada vez mais pra fazer menos sentido.
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