quinta-feira, 8 de setembro de 2011

surf side of the moon


Moleksom está sentado em sua mesa. A sala está esfumaçada em seu próprio sucesso, em sua indefectível glória. Podemos nunca ver o retorno do salvador, mas Moleksom não podia se importar menos. Não mais. Olhos fixamente no relógio. Ele é o produtor mais relevante da cidade, ele finalmente conseguiu. O que exatamente ele produz ainda não foi descoberto por ninguém. Funciona. Só funciona. Claro que incautos podem chamar de incompetência generalizada, ainda assim isso não faz sentido. Por que alguém deveria saber fazer o emprego pelo qual um é pago pra fazer? O mundo é um lugar cruel, cachorros choram na chuva, crianças ecoam desesperadas na madrugada, faculdades entram em ruína um pouco mais toda vez que algum garoto fala de assuntos extremamente batidos como se fosse um visionário. Por que as pessoas não conseguem levar um pouco menos a sério? O que aconteceu com a hora do soninho? Moleksom não julga ninguém, com algumas exceções. O relógio se move. É hora de partir.

Um exemplo clássico de imponente masculinidade, nosso herói caminha de crocs pelo corredor do mercado. Uma mosca acerta seu olho. Ele não se move. Não hoje. Hoje é seu aniversário de namoro, sua mulher é uma respeitada cantora de MPB. Com ela, Moleksom troca confissões, poemas e prosas alucinantes. Delírios de noites de verão. A alma jovem se contorcendo em pura inspiração. Moleksom coça o sovaco, cheira, e então se lembra que precisa comprar desodorante. Ele viu uma inspirada campanha de Axe Y, discutiu fervorosamente com todos que não queriam ouvir como aquilo era bem feito. Fazia sentido. As luzes do mercado misteriosamente se apagaram.

Verão, algum lugar nos anos 90. Uma banda de garagem está mandando ver em algum festival. Os jovens com seus poucos anos de adolescência abrem o concerto pra Comunidade Nin Jitsu. Guitarras gritando. Vocais majestosos. Ecos de grandeza. Você reconhece qualidade quando ela te acerta no rosto. Canções de ninar pros zumbis dos nossos tempos, música do cotidiano, a verdade em forma de som. Ele finalmente achou seu som, sua voz. O mundo é um lugar melhor por isso. O público delira. Algo novo. Algo que nos lembra a descruzar os braços em um show, abraçar as pessoas que estão no palco. Algo pra rir, e aonde foram parar essas risadas? Algo pra... Ei, o que aconteceu com os amplificadores?

Moleksom abriu os olhos. Os corredores estavam marcados de sangue, barulhos rondavam as prateleiras. Aliens. Daqueles bem clichês, parecidos com tartarugas ninja. Ele sabia que era o próximo. Seu coração acelerou. Não tinha como fugir, não tinha como se esconder. Era a hora. A hora que ele seria levado, todas as coisas vão. Moleksom começou a chorar. Nunca aprendera se fazer tudo com um guria podia ir além de alisá-la. Nunca fora pro Havaí. Um vulto no corredor. Moleksom gritou de medo. Suas últimas palavras ressoaram fortemente pelas paredes do mercado: “e meus bloqueios?”

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