domingo, 15 de abril de 2012

gloomy sunday

As imagens no meu cérebro me perseguem como uma maldição. Meus olhos nunca saem daquilo que não vi e que ainda assim me cega num oceano de lágrimas. Cada centímetro do meu corpo lateja ao erguer a cabeça pro céu sem saber todos os nomes de Deus. Meu coração encolhe e expande sem proporção alguma, fugindo em batidas pelo meu peito. Minha boca se odeia, contorce em nervosismo e terrores de inutilidade. Meus dedos tremem em seu crescimento, sempre soando ritualisticamente no teclado. No meu estômago há algo que não foi feito pra ser digerido, há um corpo estranho, irreconhecível, terrível, cruel. Minha garganta contrai em tentativas de me enforcar, sempre testemunhando meus gritos inaudíveis. Minha perna arde, como uma lembrança instantânea do pesadelo da minha noite. Minha pele rasgada por lobos está feia e idiota e desprezível e envelhecida. Meus sonhos não trazem nada além da tristeza em sua improbabilidade. Meu choro se repete sem que eu perceba, meu rosto se contorcendo em formas tão medonhas quanto aquilo que sinto. Minha voz não sabe mais rir, só se perder em eternas lamentações fast food. Meus sentimentos se misturam em um só, na dor mais estúpida possível. Meus clamores derretem em sua frugalidade lamentável, em uma solidão que não me deixa. Minhas noites se transmitem perdidas, idiotas, esquecidas.

Minhas palavras não conseguem chegar nem perto do quanto dói.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

hymn to her

two boys sit dumbstruck by the steps of the old church,
two hearts hopelessly tryin to make it out alive, pushin and
stroking their way into the other side, screamin and
bleedin violently as the night passes them by, nothing new
and nothing grew except when my eyes saw those
two beautiful deep green seas in hers, and all those
feelings before raced out of my fuckin mind, my fuckin
dramas were all left the fuck behind, except for that
fear of openin my mouth and hear whatever sound
came out of it, rushin through my emotions and loud
motions heard all across my bones as i tried to make
my way, she said “boy can you pass me the drink”,
and without a sound I had to comply, the glass of whichever
disgutin drink i was having was suddenly long gone from
my old bones as i stared blankly into the chuch and so i
realize that long months have passed me by without
a fuckin trace as i saw you driftin out of my sight,
you asked if we could be polite, educated and nice,
but as always i could only be a fuckin animal, scare as a mice,
rattled and bothered by the weight of my own soul,
lost and puzzled by my lack of depth, then it was my old song
feelin fresh as new, and i saw then and said “fuck everything,
i just love you”, and you said “i love you too” as you held
my pregnant ugly head from fallin apart in those
eternal moments i had to face every night, but those demons never sleep,
always breathin deeply and soundly, annoyingly ever present in my
dreams when i should be just dreamin of you but instead
more often than not get me wondering if you’re dreamin too,
feels like light-years behind and all those heavy days touch
the side of my face where you used to kiss and now my fingers
get their fuckin kicks out of pointin at my flaws, but love knows no laws
and nothing should be unbreakable in this scary world,
nothing is new and yet i feel so old approachin it, losin myself
in wonder from our glory days, those days when i wanted the white
of snow in a dress, but right now there’s no tan line in your index finger,
no marks of me in your body linger, that’s only fair given
my state of mind when i had to catch that plane and i feared to die
and now i can only fear not livin with you.

two boys sat ever dumbstruck by the steps of the same church,
for all those years left behind catchin dust in the corner of my mind,
as my childhood flails its way into the abyss of my heart,
for all those tears fallin like rain in yet another sunny day,
don’t wait up, anywhere i lay my head i won’t call home,
for all those times shimmerin in the dark as my eyes adjust,
there was nothing there for me just my own old Jesus,
for all those paths i crossed with my head hangin high,
how low could i get before i got myself to stop that,
for all those bats in the attic of my past,
and just how many more songs can i copy before i die,
for all those laughable caves i created as waterfalls,
bombs fallin hard and hard in my burnin bed,
for all those avalanches in those seconds before i sleep,
and this comin from who never saw the snow,
for all those restless nights wondering who could catch your ear,
printin my everlastin paranoia in shadows in the woods,
for all those minutes i spent lovin you and i don’t regret any of them,
no matter how much the world might hurt us, we won’t break,
for all those speeches about never surrenderin, i hope they’re true,
because i’ll never give you up, i hope you do that do,
for all those plans we have i wish you keep them close to your heart,
my dear, nothing could ever tear us apart, believe in me as i believe in you.

sábado, 19 de novembro de 2011

finn


Você se vitimiza tempo o suficiente, acaba acreditando ser uma vítima. Debocha tanto dos erros alheios, se pega fazendo outros bem piores. Machuca-se com tudo, nem percebe o quanto você pode machucar. E cada argumentação, cada possível justificativa, cai por terra quando se percebe que não existem, são frágeis, ignorantes, mais covardes do que francamente esperançosas. Boas coisas podem acabar, o inferno está verdadeiramente socado de boas intenções. Mas o que há no mundo fora disso? Zorra Total, péssimas futuras conversas com pessoas profundamente desinteressantes, dias longos, arrependimento e saudade. Se minha cabeça está nos lugares mais estranhos, eu sei que não tenho ninguém pra culpar além de mim mesmo.

Meu cigarro queima até o encontro dos meus dedos. Não existem respostas fáceis, caminhos seguros, problemas pouco complexos ao ponto de ser contornados com mentiras. Toda ação gera uma reação, e a reação de tudo é só o começo. Noites despertas, medo de tudo, desejo por uma porra de uma máquina do tempo. Minha surpreendente capacidade de autonegação chegou no seu estágio mais merda. Falar de epifania é sempre fácil demais, mas em cada mudança há uma morte interior pra que possa existir o renascimento. Não existe morte sem sofrimento, é só uma pena que eu não consegui trazer isso só pra mim.

Então o que fica quando a maré insiste em não baixar? Tudo acumula, nenhum fato é isolado, é tudo uma longa cadeia. Eu errei, não consegui admitir o erro, me convenci de não ter errado, até enfim perceber tudo que estava sendo feito. Cada mentira machuca, mesmo as feitas pra proteger, repetidas a exaustão ou meramente só soltas. Vira um pesadelo, você só percebe o quão errado é na prática. Não há senso moral trazido de nascimento, alguns conhecem logo de início, outros nem tanto. Eu sempre odiei esses outros, só não sabia que ia acabar me odiando.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

peur


João chegou em algum lugar, era meia-noite no mundo inteiro. A neve se acumulava na sola do seu sapato, só a madrugada fora poupada pelo frio. O céu parecia enfermo, vermelho, contorcido, mal desenhado. João enxergou a luz por dentro do estabelecimento e decidiu entrar. Nele, uma senhora veio ao seu encontro:

- O que você deseja? - seu tom era de cansaço, mais do que de subserviência.
- A noite está cruel demais pra que eu possa prosseguir, eu posso dormir em algum lugar aqui?
- Aqui? - respondeu outra voz, vinda de um canto escuro do quarto. Era um senhor que, francamente, parecia ter 200 anos.
- Sim, senhor, se for possível.
- Bom, possível certamente é. Não recebemos muitas visitas aqui, e por um bom motivo. Acredito que você seja estrangeiro.
- Sou sim, mas por que do isolamento de vocês?
- Acho que não posso culpar os nossos vizinhos, eu certamente não manteria contato comigo mesmo considerando a minha situação. Você pode ouvir minha voz? Ver meu rosto? Sentir minha presença? Quando você perdeu a cabeça, João?

Quando ele acordou, nenhum rabisco de luz o encontrava de lugar algum. No cômodo tinham quadros, João tinha a impressão de vê-los movendo. O vento fazia barulho de coros, João se encolheu.

- Solitário? - disse o senhor, embora João só tenha percebido a presença de sua voz no quarto escuro. - Qual a sensação de andar sem destino?
- Menos interessante do que parece. Eu prometi a ela o mundo, mas a mim só restou o mundo.
- Essas coisas nunca mudam, acho que todo mundo vai sempre sofrer pelas mesmas coisas.
- Eu falei que ia escrever um livro sobre tudo por ela, por isso eu caminho por esses lugares. Aonde estamos exatamente?
- Não posso te precisar, em algum lugar inventado na sua cabeça parece bom.
- Aqueles quadros parecem se mover.
- Não repare. Sabe, quando eles vieram levar minha senhora, meu coração disparou. Eu não fazia ideia do motivo daquilo tudo. Acusações foram feitas pra todos os lados, eu sabia que ela era inocente de tudo. Seu rosto contorceu quando a penduraram na forca, eu tive por muito tempo pesadelos com o som que não ouvi de sua voz. Todas as noites eu acordava uma dezena de vezes, sempre com a impressão de alguém estar do meu lado. Nos meus sonhos, nós corríamos por jardins enormes, nunca era hora de ir. Nunca era hora de ir. Até que foi hora de ir.
- Por que você fala de tudo no passado? Você conseguiu superar?
- Nunca.
- Então por que?
- Vá dormir, João.

Quando ele acordou, alguns rabiscos de luz o encontravam de algum lugar. No cômodo tinham janelas, João as encarou fixamente, imobilizado pelo medo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

sentiment de la vie

O diabo apareceu nos meus sonhos.
- Por que você fica me chamando? - disse ele.
- Não achei que seria ouvido. Nenhum outro motivo, acho.
- Você ainda checa embaixo da sua cama todos os dias, ainda corre no corredor escuro, ainda fica imóvel com qualquer barulho de vizinho.
- Acho que essas horas eu posso me permitir essa incoerência.
- Pode, meu filho. Você se lembra do campo?

Era tarde aquele dia, a estação tinha acabado de chegar. Flores surgiam de tudo quanto é canto. Eu estava sentado em algum banco de praça, quando tudo me bateu. Minha alegria foi tremenda, precisei entrar numa Igreja Universal do Reino de Deus. Um segurança me barrou.
- Você precisa ser mais velho pra entrar aqui. - o segurança mantinha um dos olhos fechados por algum motivo.
- Você se lembra dos dias no campo?
- O que sobre os dias no campo? Eu nunca tive dias no campo.
- Sim, você teve. Uma vez em alguma cidade do interior, sua mãe foi passar uns dias numa fazenda de uns amigos. Era frio, foi a primeira vez que você viu fumaça saindo da sua boca. Você estava feliz.
- Sim, e daí?
- Você se lembra do que houve?
- Sim, eu andei de bicicleta até eu cair numa cerca.
- Com quem você está falando? - o segurança estranhamente abriu o olho.

Repete. Os dias no campo. Acho que não houve muitos deles.
- A casa da minha vó cheirava a natureza, era o que eu achava. Era o mais suburbano que podia ser, mas pra mim parecia tão selvagem, tão inexplorado.
- Você se lembra dos aniversários lá?
- Sim, lembro que tinha um joguinho dos Flintstones.
- Você ganhou uma garagem grande de carros. Seu irmão montou pra você. Agora, diga, meu filho, por que isso agora?
- Não sei, acho que nunca vou sair da parte boa da minha infância. Eu sou uma porra duma criança, afinal.
- Você está perdendo. Você sabe o que é o inferno? O inferno é machucar a pessoa que você ama de novo, e de novo. Até você não conseguir dormir mais, distraído pelo barulho dos seus dentes caindo por toda a noite.
- Eu não quis...
- Irmão, se você quiser sentar, tomar um pouco de água.
- Quem disse isso?
- Foco em mim. Por que você segue me chamando?
- Ouço estalos na minha geladeira.

Minha sala está vazia.
- O som de violinos preenche meus ouvidos.
- Ah, música. Seu pecado, meu filho, seu inevitável destino.
- Eu não vou mais machucar ninguém.
- Fique – o diabo acendeu um cigarro. - Fique só mais um pouco.
- O que eles não te dizem sobre o amor é o quão visceral ele é. Faz-te querer pintar a parede com seus miolos, até não restar nenhum vestígio de algum sonho. Sonho de um futuro que pode nunca acontecer. Que eu quero.
- Ela quer também.
- Mas pra onde podemos ir disso?
- Irmão, o culto de hoje começa somente as 20h, você não quer comparecer mais tarde?
- Eu fico ouvindo esses números na minha cabeça...
- Lembra quando você era criança, que você fazia a voz de todos os bonecos com que brincava? Ainda hoje você fala com video-games, como ficções que você cria.
- Por que isso?
- Acho que é mais fácil viver assim. O que há lá fora?
- Frio. Só o frio foi deixado pela madrugada.

Era uma madrugada particularmente fria. Meu casaco estava no outro cômodo, mas eu juro que parecia quilômetros de distância.
- Eu te seguirei não importa aonde você vai, sabe por que?

Agora estou no balanço. É o prédio aonde cresci.
- Porque você nunca realmente vai embora.
- Mas eu fui, fazem 7 anos ou algo.
- Lembra quando você botou os óculos verdes? O jeito que o céu ficou verde igual? Lembra de escrever letras de músicas em pastilhas?

Meu rosto dói.
- Por que você se bate?
- Porque eu sou terrivelmente fraco. Violentamente romântico. Idiota ao ponto de precisar de um novo termo aumentativo pra “idiota”.
- Medroso.
- Talvez sim, você mesmo disse que eu olho embaixo da cama toda a noite.
- Não subestime o amor. Quando tudo parece perdido, se for de verdade é nessa hora que você vai se encontrar.
- Posso fumar um desses?

Pergunta retórica. Óbvio que posso. De volta pro balanço.
- Você sabe que realmente está falando sozinho né?
- Eu gostava de mentir pra mim mesmo que andava com as mãos na cabeça. Eu sempre andei tão normal. Sempre houve tanta normalidade na minha insanidade. Meus traumas não são os maiores do mundo, ainda assim, por que montanhas pra mim?

O balanço cessa seu movimento. Repete. Os dias no campo. Acho que não houve muitos deles.
- A casa da minha vó cheirava a natureza, era o que eu achava. Era o mais suburbano que podia ser, mas pra mim parecia tão selvagem, tão inexplorado.
- Você se lembra dos aniversários lá?
- Sim, lembro que tinha um joguinho dos Flintstones.

Eu já disse isso.
- Sim, mas você está realmente sabendo o que está sendo dito?
- Acho que só queria uma chance de algo romântico, ser algo verdadeiro que não iria embora. Minhas intenções são boas.
- Você tem a garota, mas tê-la é um mal pra ela, então de que te vale?
- Eu tenho medo.

E eu ainda tenho. Não desiste de mim. Não desiste de mim.

domingo, 9 de outubro de 2011

top 10 - letristas

Como em todo começo bosta de texto meu, já solto logo de cara que letras são um bagulho estranho – cada dia mais próximo da ABL, hosanna nas alturas! Tendo a não prestar muita atenção, mas acho estranho como elas são realmente pouco valorizadas por muitas vezes. Frases de efeito soam bacana, aquele efeito inegável beirando o universal, mas eu tendo a ser ainda mais cegamente subjetivo com palavras do que com melodias. É necessário rolar correlação, caso contrário eu desligo e imagino que todo o vocal é sobre jogar boliche. Selecionei 10 compositores e organizei em forma de lista descendente, só porque eu sou assim desocupado.


10- Bill Callahan

Da brilhante “cena” de rock-country depressivão (Cat Power, Will Oldham, Jason Molina, etc), nosso querido cantor anteriormente conhecido como -Prince- Smog consegue passar melhor o desespero vazio que existe em cada paisagem bonita. Relatos intensamente pessoais construídos em torno de fragmentos de frase são o tipo de coisa que deixa meu cachorro sorrindo, e ele – Bill, não meu cachorro – tem um jeito de fazer isso sem alienar quem está ouvindo. Melodias simples, geralmente arranjadas com poucos instrumentos e menos acordes ainda, dão o tom austero pedido pelas palavras. Canções de ausência, canções de desesperança, canções de loucura.


9- MF DOOM

Nessa lista principalmente por seu trabalho no Madvillain, eu não resisto a rimas internas. O crioulão inglês Daniel Dumile ficou famoso por usar a máscara do Victor von Doom em todas as suas aparições públicas, o que, embora seja brilhante como estratégia de publicidade (e existem faculdades dessa porra), acaba deixando em segundo plano seu brilhante talento como letrista. Os temas não são necessariamente profundos, mas é a forma como as letras se desenvolvem que simplesmente me prende. Cada palavra soa bem numa sequência aparentemente eterna, Dumile no auge da sua carreira conseguia construir verdadeiros labirintos em forma de rimas.


8- Daniel Bejar

Arrependimentos pequenos cercam as palavras de Daniel muitas vezes, em outras ele celebra algum amor antes desses arrependimentos. Odeio o termo “selvagem”, mas me parece inevitável, considerando como o vocal do Destroyer sempre parece que vai descambar pra gemidos e barulhos. Só que faz sentido no final. No Kaputt, Daniel soa velho, cansado, ultrapassado. Tudo envelhece, nós estamos fadados ao cansaço antes mesmo do dia começar, ainda que poucos aceitam essa ferrugem. Bejar aceitou, abraçou e fez dela tema, brilhantemente sobreposto com composições bem Pet Shop Boys. Tipo um Julio Iglesias, só não sei dizer o como exatamente.


7- Tom Waits

Embora eu goste das letras da fase teatral, é no começo da carreira que o Tom Waits realmente brilha pra mim nisso. Seus contos decadentes de bares mefistofélicos perdidos em inenarráveis fumaças de cigarros vagabundos enchem meu coração, é uma espécie de Bukowski que ainda não foi descoberto e imbecilizado por miríades de curitibanos. Se nosso querido Thomas tivesse gravado só o Closing Time já estaria com certeza nessa lista, cada faixa tem letras melancólicas e inspiradas, tocadas no piano e com a voz rouca mais espetacular da história.


6- Brian McMahan

Slint é o som da vida se fudendo. Os vocais exclusivamente falados e gritados do Brian McMahan dão a tensão necessária, mas é nas letras que o verdadeiro abismo reside. Lentamente, Brian constrói cenas horríveis de ataques de pânico, isolamento, insanidade e tudo mais daquilo que habita no lado negro do ser humano. Relatos dão conta que ele especialmente tímido, tanto com sua voz quanto com o que escrevia, o que se traduz perfeitamente no som. Não é fácil de digerir, mas as melhores coisas tendem a não ser. A obra-prima que é o Spiderland é inteira composta pra ter um climax, que acontece perto do final de “Good Morning, Captain”, e nenhuma outra vez na música houve um impacto tão profundo quanto o sentido nos últimos gritos do nosso tímido cantor.


5- Jeff Mangum

Sequências de stream of consciousness doentios envolvendo alguma forma de atração sexual pela Anne Frank, utilizado, obviamente, como metáfora pro estado mental do locutor, formam o texto de In the Aeroplane Over the Sea. É sobre amor, mas amor nem sempre é romântico. Nas 11 músicas que formam a genial obra-prima do Neutral Milk Hotel, Jeff Mangum despiroca em imagens medonhas, situações lamentáveis e num geral um senso de desespero decadente. A última faixa do álbum, “Two Headed Boy Pt. 2”, fecha o disco com uma observação triste e hipnotizante ao mesmo tempo. É aquela zona cinza bizarra aonde esperança se mistura com aceitação de um futuro pior do que esperávamos. Tem um episódio de Simpsons aonde o Moe encoxa uma anã, só para perdê-la no final do capítulo. Depressivo, Moe limpa o balcão do bar quando o Homer chega e pergunta o que houve. Ouvindo a narrativa do barman, Homer solta algo como: “pensa que ela te amou. E se ela te amou, quer dizer que outra pessoa pode vir a te amar de novo, e quando você perceber isso você vai sorrir”. Moe sorri. A vida pode ser uma merda às vezes, mas não parece que teremos outra.


4- Patrick Stickles

Barbudão com pinta de Loser Mano, Stickles felizmente não tem nenhuma relação com a arrepiante banda brasileira. Citar Bruce Springseen, primeiro em referência e depois por nome, é algo que já faz qualquer letra ser boa. The Boss não está nessa lista por alguma tecnicalidade, e porque ele nunca alcançou o nível de brilhantismo lírico alcançado por Stickles em “The Monitor”. A guerra civil americana serve como cenário bizarro pra narrativa, sendo que o assunto verdadeiro é a decadência do cotidiano. Sobre idiotas ganhando salários altos pra fotografar balada. A última frase do disco me faz chorar em cada vez.


3- Phil Elvrum

Existe uma qualidade infantil nas palavras do criador de Microphones e Mount Eerie. Phil constrói imagens e cenas sem muitas atribulações, suas letras são diretas, sem adornos. Trilha-sonora perfeita pros momentos mais obscuros que temos antes de dormir, a voz aguda do nosso querido compositor é desesperadora na mesma medida em que é confortável. É mais fácil ficar deprimido do que lutar contra, mas facilidade, na teoria, tem pouca relação com a realidade quando tudo é tão difícil, na prática.


2- Aidan Moffat

Escrever sobre fuder é um troço arriscado, você inevitavelmente vai acabar caindo num Marvin Gaye de enésima categoria. Moffat, no entanto, fez sua carreira relatando escapadas sexuais e a completa ausência delas. Sexo é uma parte importante da vida, principalmente pra quem não está conseguindo nada. O sotaque carregadão de Aidan, somado com arranjos hiper estilizados, fazem o clima de bar fechando proposto pela banda parecer ainda mais crível. Boa trilha, também, para momentos com a garota certa, que nem eu achei a minha.


1- Isaac Brock

Se todo mundo que diz conhecer Modest Mouse tivesse ouvido além dos dois últimos discos, porra, o mundo seria bem melhor, se não certamente menos irritante. Mas Curitiba existe! As letras do Isaac são de uma complexidade simples, coerente com o seu criador. Uma infância difícil, completa com ser escolado em casa, ver sua casa sendo inundada 3 vezes, tendo que morar num trailer. Inspirado fortemente pela religião, ou melhor, ausência dela, Brock coloca no que canta uma tremenda carga emocional. Suas letras são cheias de momentos que te fazem pensar “porra, pode crê, irado”, ou sei lá o que as crianças estão falando hoje em dia.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

rei das flores de cenoura


Batidas de coração. Perdendo o rumo. Saindo do tempo. Pulsando. Como desenhos na areia, minha visão dissolve com a chegada da água. Existe uma luz no quarto, uma luz. Eu checo minha mochila de novo, e de novo, nunca a me assegurar que meu livro não caiu em algum lugar na rua. A avenida está vazia, apenas as luzes de postes no horizonte indicam alguma vida enquanto eu desço. Minha cabeça dói, eu não lembro do dia em que ela desistiu disso. Mas algum dia virá, eu digo pra mim mesmo. Meu dia já está escrito, em tinta invisível, com adornos tortos e aliterações ruins. A floresta é funda, sento num banco e olho pra cima. O céu parcialmente encoberto por folhas revela a luz da lua sobre as nuvens, nenhuma estrela a ser vista. Até que eu encontro uma. Dessa vez a lua não desce pra me entregar uma maçã. Pequenas constelações aparecem aonde meus órgãos deviam estar. Eu estou feliz, ainda que exista uma melancolia em mim que nunca vai desaparecer. Eu ouço o apito. Embaixo d'água agora. Batidas de coração.

E elas aceleram. Ela se move. Seu sono não é combatido. Há uma paz nele. Como um dia no parque, vendo as crianças brincando até a hora em que os brinquedos fiquem desocupados. O silêncio após a tempestade é muito maior do que o que a precede. Furacão. Meus pés estão frios. Castelos na França. Eu não gosto de castelos, eu sou o filho do meu pai. O vulto passa por mim, ele fala comigo em uma língua estrangeira. Estrangeiro, destinado a ser sempre um turista. Não há tristeza, no entanto. Um sol feito de queijo que não te fizesse mal. Acredite em mim. Nós vamos crucificar todos os medos, todos os sonhos ruins.

Batidas de coração. Respiração funda agora. Pesadelos? Estou em algum lugar, perdido no meio do mar. Perdi meu navio, flutuo num bote salva-vida. Algo me alcança pela água. Não escuto uma voz. Acordo na exata metade da noite, minha cabeça no lugar mais estranho. Batidas de coração. Escuto a música em minha cabeça. Relaxante pra mim. Tudo está no seu lugar certo, por hoje. Por agora. Bocejo. Ela se mexe. Fui barulhento? Percebo que nesse momento utilizo a cortina como uma peruca, rapidamente me ajeito. Sorrio pra mim mesmo. Escrevo poesias na minha testa. Por hoje. Batidas de coração. Lentas agora. Distantes. Coração de chambinho, daquele bem rosa. Rios disso. Barcos de bolacha. Árvores de qualquer coisa. Não quero deixar agora.

A manhã. Batidas de coração. Minhas mãos estão dormente. Deus, eu estou inteiro dormente. Pergunto-me se estou dormindo, como um daqueles sonhos hiper-realista aonde tu acha que acordou, vai na cozinha e a gelatina fala contigo. Ou o salaminho. Sou gordo, quem eu estou tentando enganar? O iogurte light nunca tem voz nos meus delírios, imagino que se tivesse soaria algo como o Antônio Fagundes. Ah, a ironia. Divaguei. Como sempre. Batidas de coração. A música soa pelo quarto. É a hora. Batidas de coração. Batidas de coração. Batidas de coração. Batidas de coração.