quinta-feira, 17 de novembro de 2011

peur


João chegou em algum lugar, era meia-noite no mundo inteiro. A neve se acumulava na sola do seu sapato, só a madrugada fora poupada pelo frio. O céu parecia enfermo, vermelho, contorcido, mal desenhado. João enxergou a luz por dentro do estabelecimento e decidiu entrar. Nele, uma senhora veio ao seu encontro:

- O que você deseja? - seu tom era de cansaço, mais do que de subserviência.
- A noite está cruel demais pra que eu possa prosseguir, eu posso dormir em algum lugar aqui?
- Aqui? - respondeu outra voz, vinda de um canto escuro do quarto. Era um senhor que, francamente, parecia ter 200 anos.
- Sim, senhor, se for possível.
- Bom, possível certamente é. Não recebemos muitas visitas aqui, e por um bom motivo. Acredito que você seja estrangeiro.
- Sou sim, mas por que do isolamento de vocês?
- Acho que não posso culpar os nossos vizinhos, eu certamente não manteria contato comigo mesmo considerando a minha situação. Você pode ouvir minha voz? Ver meu rosto? Sentir minha presença? Quando você perdeu a cabeça, João?

Quando ele acordou, nenhum rabisco de luz o encontrava de lugar algum. No cômodo tinham quadros, João tinha a impressão de vê-los movendo. O vento fazia barulho de coros, João se encolheu.

- Solitário? - disse o senhor, embora João só tenha percebido a presença de sua voz no quarto escuro. - Qual a sensação de andar sem destino?
- Menos interessante do que parece. Eu prometi a ela o mundo, mas a mim só restou o mundo.
- Essas coisas nunca mudam, acho que todo mundo vai sempre sofrer pelas mesmas coisas.
- Eu falei que ia escrever um livro sobre tudo por ela, por isso eu caminho por esses lugares. Aonde estamos exatamente?
- Não posso te precisar, em algum lugar inventado na sua cabeça parece bom.
- Aqueles quadros parecem se mover.
- Não repare. Sabe, quando eles vieram levar minha senhora, meu coração disparou. Eu não fazia ideia do motivo daquilo tudo. Acusações foram feitas pra todos os lados, eu sabia que ela era inocente de tudo. Seu rosto contorceu quando a penduraram na forca, eu tive por muito tempo pesadelos com o som que não ouvi de sua voz. Todas as noites eu acordava uma dezena de vezes, sempre com a impressão de alguém estar do meu lado. Nos meus sonhos, nós corríamos por jardins enormes, nunca era hora de ir. Nunca era hora de ir. Até que foi hora de ir.
- Por que você fala de tudo no passado? Você conseguiu superar?
- Nunca.
- Então por que?
- Vá dormir, João.

Quando ele acordou, alguns rabiscos de luz o encontravam de algum lugar. No cômodo tinham janelas, João as encarou fixamente, imobilizado pelo medo.

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