Como em todo começo bosta de texto meu, já solto logo de cara que letras são um bagulho estranho – cada dia mais próximo da ABL, hosanna nas alturas! Tendo a não prestar muita atenção, mas acho estranho como elas são realmente pouco valorizadas por muitas vezes. Frases de efeito soam bacana, aquele efeito inegável beirando o universal, mas eu tendo a ser ainda mais cegamente subjetivo com palavras do que com melodias. É necessário rolar correlação, caso contrário eu desligo e imagino que todo o vocal é sobre jogar boliche. Selecionei 10 compositores e organizei em forma de lista descendente, só porque eu sou assim desocupado.
10- Bill Callahan
Da brilhante “cena” de rock-country depressivão (Cat Power, Will Oldham, Jason Molina, etc), nosso querido cantor anteriormente conhecido como -Prince- Smog consegue passar melhor o desespero vazio que existe em cada paisagem bonita. Relatos intensamente pessoais construídos em torno de fragmentos de frase são o tipo de coisa que deixa meu cachorro sorrindo, e ele – Bill, não meu cachorro – tem um jeito de fazer isso sem alienar quem está ouvindo. Melodias simples, geralmente arranjadas com poucos instrumentos e menos acordes ainda, dão o tom austero pedido pelas palavras. Canções de ausência, canções de desesperança, canções de loucura.
9- MF DOOM
Nessa lista principalmente por seu trabalho no Madvillain, eu não resisto a rimas internas. O crioulão inglês Daniel Dumile ficou famoso por usar a máscara do Victor von Doom em todas as suas aparições públicas, o que, embora seja brilhante como estratégia de publicidade (e existem faculdades dessa porra), acaba deixando em segundo plano seu brilhante talento como letrista. Os temas não são necessariamente profundos, mas é a forma como as letras se desenvolvem que simplesmente me prende. Cada palavra soa bem numa sequência aparentemente eterna, Dumile no auge da sua carreira conseguia construir verdadeiros labirintos em forma de rimas.
8- Daniel Bejar
Arrependimentos pequenos cercam as palavras de Daniel muitas vezes, em outras ele celebra algum amor antes desses arrependimentos. Odeio o termo “selvagem”, mas me parece inevitável, considerando como o vocal do Destroyer sempre parece que vai descambar pra gemidos e barulhos. Só que faz sentido no final. No Kaputt, Daniel soa velho, cansado, ultrapassado. Tudo envelhece, nós estamos fadados ao cansaço antes mesmo do dia começar, ainda que poucos aceitam essa ferrugem. Bejar aceitou, abraçou e fez dela tema, brilhantemente sobreposto com composições bem Pet Shop Boys. Tipo um Julio Iglesias, só não sei dizer o como exatamente.
7- Tom Waits
Embora eu goste das letras da fase teatral, é no começo da carreira que o Tom Waits realmente brilha pra mim nisso. Seus contos decadentes de bares mefistofélicos perdidos em inenarráveis fumaças de cigarros vagabundos enchem meu coração, é uma espécie de Bukowski que ainda não foi descoberto e imbecilizado por miríades de curitibanos. Se nosso querido Thomas tivesse gravado só o Closing Time já estaria com certeza nessa lista, cada faixa tem letras melancólicas e inspiradas, tocadas no piano e com a voz rouca mais espetacular da história.
6- Brian McMahan
Slint é o som da vida se fudendo. Os vocais exclusivamente falados e gritados do Brian McMahan dão a tensão necessária, mas é nas letras que o verdadeiro abismo reside. Lentamente, Brian constrói cenas horríveis de ataques de pânico, isolamento, insanidade e tudo mais daquilo que habita no lado negro do ser humano. Relatos dão conta que ele especialmente tímido, tanto com sua voz quanto com o que escrevia, o que se traduz perfeitamente no som. Não é fácil de digerir, mas as melhores coisas tendem a não ser. A obra-prima que é o Spiderland é inteira composta pra ter um climax, que acontece perto do final de “Good Morning, Captain”, e nenhuma outra vez na música houve um impacto tão profundo quanto o sentido nos últimos gritos do nosso tímido cantor.
5- Jeff Mangum
Sequências de stream of consciousness doentios envolvendo alguma forma de atração sexual pela Anne Frank, utilizado, obviamente, como metáfora pro estado mental do locutor, formam o texto de In the Aeroplane Over the Sea. É sobre amor, mas amor nem sempre é romântico. Nas 11 músicas que formam a genial obra-prima do Neutral Milk Hotel, Jeff Mangum despiroca em imagens medonhas, situações lamentáveis e num geral um senso de desespero decadente. A última faixa do álbum, “Two Headed Boy Pt. 2”, fecha o disco com uma observação triste e hipnotizante ao mesmo tempo. É aquela zona cinza bizarra aonde esperança se mistura com aceitação de um futuro pior do que esperávamos. Tem um episódio de Simpsons aonde o Moe encoxa uma anã, só para perdê-la no final do capítulo. Depressivo, Moe limpa o balcão do bar quando o Homer chega e pergunta o que houve. Ouvindo a narrativa do barman, Homer solta algo como: “pensa que ela te amou. E se ela te amou, quer dizer que outra pessoa pode vir a te amar de novo, e quando você perceber isso você vai sorrir”. Moe sorri. A vida pode ser uma merda às vezes, mas não parece que teremos outra.
4- Patrick Stickles
Barbudão com pinta de Loser Mano, Stickles felizmente não tem nenhuma relação com a arrepiante banda brasileira. Citar Bruce Springseen, primeiro em referência e depois por nome, é algo que já faz qualquer letra ser boa. The Boss não está nessa lista por alguma tecnicalidade, e porque ele nunca alcançou o nível de brilhantismo lírico alcançado por Stickles em “The Monitor”. A guerra civil americana serve como cenário bizarro pra narrativa, sendo que o assunto verdadeiro é a decadência do cotidiano. Sobre idiotas ganhando salários altos pra fotografar balada. A última frase do disco me faz chorar em cada vez.
3- Phil Elvrum
Existe uma qualidade infantil nas palavras do criador de Microphones e Mount Eerie. Phil constrói imagens e cenas sem muitas atribulações, suas letras são diretas, sem adornos. Trilha-sonora perfeita pros momentos mais obscuros que temos antes de dormir, a voz aguda do nosso querido compositor é desesperadora na mesma medida em que é confortável. É mais fácil ficar deprimido do que lutar contra, mas facilidade, na teoria, tem pouca relação com a realidade quando tudo é tão difícil, na prática.
2- Aidan Moffat
Escrever sobre fuder é um troço arriscado, você inevitavelmente vai acabar caindo num Marvin Gaye de enésima categoria. Moffat, no entanto, fez sua carreira relatando escapadas sexuais e a completa ausência delas. Sexo é uma parte importante da vida, principalmente pra quem não está conseguindo nada. O sotaque carregadão de Aidan, somado com arranjos hiper estilizados, fazem o clima de bar fechando proposto pela banda parecer ainda mais crível. Boa trilha, também, para momentos com a garota certa, que nem eu achei a minha.
1- Isaac Brock
Se todo mundo que diz conhecer Modest Mouse tivesse ouvido além dos dois últimos discos, porra, o mundo seria bem melhor, se não certamente menos irritante. Mas Curitiba existe! As letras do Isaac são de uma complexidade simples, coerente com o seu criador. Uma infância difícil, completa com ser escolado em casa, ver sua casa sendo inundada 3 vezes, tendo que morar num trailer. Inspirado fortemente pela religião, ou melhor, ausência dela, Brock coloca no que canta uma tremenda carga emocional. Suas letras são cheias de momentos que te fazem pensar “porra, pode crê, irado”, ou sei lá o que as crianças estão falando hoje em dia.









