Encha meu copo, minha cabeça nunca cansa de estar vazia,
cansei dos rostos me seguindo pela areia, cansei da areia
tocando em meus pés enquanto eu finjo não estar pensando
em tudo aquilo de novo, tudo aquilo de novo, você sabe do que falo?
Eu lembro da noite vermelha, Mariana;
foi quando eu te carregei pelas ruas, você desmaiada, bêbada, desesperada,
seu rosto se contorcendo em cada pensamento nunca a ser revelado,
sua boca cortada em diversos pedaços, sem qualquer expressão,
seu coração partido em cortes, sem qualquer esperança,
sem qualquer alívio, qualquer pausa, qualquer perspectiva,
foi quando eu sorri pra ver seu sorriso, nada a ser revelado,
eu vi você daquele jeito tantas vezes, tantas vezes,
não há até hoje um dia em que eu não olhe pras minhas mãos
e as queira em volta do seu pescoço,
apertando cada vez mais, apertando até não haver o que apertar,
e eu te jogaria no chão, daonde você nunca devia ter saido,
pegaria a primeira pedra e te esmagaria até não sobrar mais,
até você não poder voltar pra me culpar pela minha distância,
pela minha indiferença, nunca foi indiferença,
nunca me culpe disso, eu não sou indiferente,
eu sou uma porra dum turista na pior cidade do mundo,
o que você acha que sabe?
Todos os garotos ignoram isso, eu não consigo, eu nunca consegui,
é tudo aquilo de novo, sabe, é o que eu mencionei sem citar,
o que expliquei sem usar qualquer palavra conhecida pelo homem, a melancolia no silêncio.
Quando o vento parou estava chuvendo na praia,
minha cabeça não voltou do lugar mais estranho para o qual ela já foi
para o qual ela ousou ir, me contrariando de novo.
Eu vi de tudo, eu vi de tudo, perdido em estar perdido no meu mundo,
foi quando eu ouvi sua voz,
foi quando você me disse "olá" e eu só consegui ouvir "adeus",
foi quando eu inventei todos meus contextos, todo meu passado.
Eu não vi nada, eu nunca vi nada,
eu não saberia dizer como se sente não ser aleijado por mim mesmo,
eu estou fudido desde o útero, desde o conceito inicial,
não parece que vou me infuder no futuro,
não vejo nenhum machucado, nenhuma maldade, meus bonecos ainda estão guardados,
esperando que eu me renda, sabendo que eu vou.
Não luto por uma porra de uma revolução, não luto por lutar nada,
foda-se quem se acha especialista em tudo,
foda-se quem acha que deve me aconselhar em tudo aquilo que eu não controlo,
foda-se quem corre as ruas clamando ser diferente,
foda-se quem se nega a ignorar o mistério em tudo,
foda-se quem julga ser mais inteligente do que eu,
foda-se eu, acima de tudo.
Encontre-me em qualquer lugar e em qualquer hora da noite,
enxuge meu rosto, dance comigo,
sinta meu coração disparando em qualquer menção de algo poder estar errado,
ouse por mim que nem eu faria por você,
olhe nos meus olhos e me convença que a manhã nunca virá,
que essa noite não tem como acabar, que não pode acabar,
escape comigo da minha tempestade invisível.
Encha meu copo, minha cabeça nunca cansa de estar vazia,
eu sou o que sobraria deles quando meu plano estivesse completo,
encostado sem direção no muro de um terreno baldio,
vadio sem expressão num pulo escondido,
porque não há como desfazer cada coisa estúpida que fazemos,
meus fantasmas sempre voltam pra me estuprar silenciosamente,
como num grito, num espanto, num medo,
eu vivo e morro por isso tudo, vivo e morro por isso tudo.
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