quarta-feira, 13 de julho de 2011

imperícia

Eu estava sentado na varanda do meu sítio quando um estranho se aproximou. Carregando consigo uma mala marrom, ele andou lentamente. Eu estranhamente o reconheci, embora não tenha conseguido localizar na minha memória.

- Bom dia - ele disse, se aproximando cada vez mais de onde eu estava. Largou a mala, botou a mão no bolso e tirou um cigarro.
- Precisa de fogo? - ei, minha mãe sempre disse pra eu ser prestativo.
- Você não sabe quem eu sou? Você não se lembra daquelas noites? - ele tinha um bigode bem cinza, seu rosto estranhamente era mais jovem do que deveria ser.
- Perdão, minha cabeça está ficando fraca de tanto tempo sozinho...
- Difícil de te culpar.
- Mas quem é você?
- Lembra quando você queria ganhar dinheiro? E, subitamente, te apareceu a idéia de criar uma música que foi sucesso no verão de 2012, o axé Robô do Amor.
- Claro, é o que pagou por isso tudo.
- Pois bem, meu caro, lembra quando uma noite você chegou em casa bêbado, desesperado por outra desilusão amorosa, pensou em vender sua alma em troca do sucesso que lhe traria alguma elusiva paz de espírito.
- Não claramente, como você saberia disso?
- Simples: eu não funciono como 0800, você não precisa vir a mim.
- Okay, senhor, eu aprecio uma brincadeira como todo mundo, mas preciso pedir-lhe que acelere o seu passo na explicação real da sua visita.
- Pequeno João, você não se lembra como você corria pra deitar na cama, rezando pra que eu não estivesse embaixo dela? Curiosamente, não havia lugar melhor pra mim.
- Eu...
- E aquela vez que você abraçou seu cachorro na noite pedindo que nenhum outro viesse pra te fazer ameaças de morte nos seus sonhos? Eu me diverti tanto aquele dia.
- Você... Se divertiu?
- Qual sua dificuldade de lógica? Se você andar logo eu não rasgo a buceta da sua mãe quando chegarmos em casa, meu filho.
- Deus, que porra é essa?
- Deus é todo o clichê de diálogo bosta envolvendo o diabo. Eu? Eu sou o cara que teve a chance de estuprar e arrebentar o cu selado virgem da sua irmã. E não pense que ela não gostou, todas as noites pedindo por mais.
- Você não sabe que minha irmã se matou.
- Claro que eu sei, eu estava lá! De camarote! Quando a fumaça da arma baixou, quem você acha que foi o primeiro rosto que ela viu? Agora todo dia eu passo por ela, ela virou uma árvore tão linda no meu jardim, aonde eu talhei seu nome pra cada dia que você estava ausente.
- Senhor, eu não gosto dessa conversa. Vou pedir que me ajude a manter meu grau de cordialidade, só vá embora e fingimos que nada disso aconteceu.
- Mas aconteceu! Venha me dar um abraço e conheça sua casa verdadeira - meu corpo se levantou contra a minha vontade.

Eu estava sentado na varanda do meu sítio assistindo o filme do Bruno Mazzeo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário