Nosso protagonista Charles fora atropelado naquela tarde. Ele não viu o carro, devia ter sido um vermelho – afinal, vermelho era sua cor desde o desfile de 1ª série nas olimpíadas do colégio interno. Sua namorada havia saído para uma viagem com seu primo, Jorge, mesmo Charles desconfiando do grau de parentesco, afinal, sua digníssima não tinha praticamente nada de latina em seu sangue. Jorge era um jovem esguio, bigodes amplos estampavam seu fino rosto, cabelo com corte militar repartido ao meio, feição de algo que você normalmente veria no Discovery Channel. Charles mancava pela avenida, todo o seu público aparentemente decidiu ignorar sua contusão, era meio patético. Ele nunca crescera um bigode, jamais uma barba, não chegou a ter uma jaqueta de couro. Socialmente inapto, Charles trabalhava numa sorveteria, aonde o seu sabor favorito, de pistache, encontrava-se permanentemente fora de estoque. Ele estava vindo de lá, encarando o trânsito e as obras, estampado com seu uniforme branco e rosa ridículo – ao qual ele mesmo se referia como “minha fantasia de Carlinhos de Jesus”, o que não podia ser mais apropriado – ignorante aos acontecimentos matinais, tentando se manter despreocupado. Seu cachorro, o Sussa, estava com algum tipo bizarro de pneumonia, passava seus dias tossindo e melancólico.
Manquitolando em direção a algo, Charles então começara a se perguntar sobre seu sobrenome. Claramente ele devia ter um, ainda assim foi algo que passou despercebido pela minha cabeça. “Pinheiro” parecia uma boa escolha, mas ainda assim nunca entendi qual era o lance disso. Exercício frugal, embora que nessa altura tudo parecia fútil na cabeça do nosso herói. O sol brilhava cada vez mais, nem era verão mas o calor estava evidente, como uma música ruim idolatrada por nenhum motivo conhecido. Era um pouco demais. “Por que ela fizera isso?”, era a pergunta que não escapava da sua cabeça. Pessoas tendem a entrar e sair da sua vida, mas por que ele não tinha um voto sobre a segunda ação? Parecia injusto. Ele queria chegar em casa, ver seu cachorro sorrindo, com balões espalhados por todos os cômodos, sorrisos rosados e graciosos pintados em todo corredor. Não havia muito disso esses dias.
A primeira queda. Como um boxeador ignorando todos os limites de seu corpo, nosso amado protagonista se pôs sob seus pés novamente. Ainda, perguntas não o deixavam. Como Jorge estava se sentindo agora? Ele estava a beijando? Lambendo? Mordendo e arrancando pedaço, do sangue que Charles nunca provara? Uma garota o interpelou, perguntou se ele queria participar da promoção do dia dos pais de uma operadora de celular. Era essa época de novo. Charles suava como um burro cansado. “Eu não comprei meu Mac!”, e tentou correr ignorando o caminho. Cicatrizes são a mais óbvia expressão de dor, mas são as marcas internas que realmente nos matam. O sangue começou a encharcar o uniforme branco e rosa horrível. A segunda queda.
Quando Charles abriu a porta, o Sussa veio o receber. Seu rabo abanando como um autêntico ventilador foi uma revelação. Tudo estava bem. Jorge se encontrava empalado, ao lado da TV, o simbolismo pareceu claro demais. A música começou a ecoar no ar, ó dias passados ao doce som de Kenny G! Você tem que admirar alguém que se nomeia pelo nome do ponto feminino mais mistificado. Sua namorada o esperava na cama, com pequenas flores jogadas pelo quarto. Vela com aroma de frutas, tão cítrico nessa estação! Toda a cena estava suculenta, como um bife recém-tirado de sua manteleta, o que não faz sentido e é, francamente, um pouco nojento, mas pareceu uma boa alusão na hora. Uma casa feliz com sonhos felizes. Charles se sentou ao lado de sua mulher, e começou a contar todos os seus planos, enquanto a luz se apagava.
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