segunda-feira, 12 de setembro de 2011

rei das flores de cenoura


Batidas de coração. Perdendo o rumo. Saindo do tempo. Pulsando. Como desenhos na areia, minha visão dissolve com a chegada da água. Existe uma luz no quarto, uma luz. Eu checo minha mochila de novo, e de novo, nunca a me assegurar que meu livro não caiu em algum lugar na rua. A avenida está vazia, apenas as luzes de postes no horizonte indicam alguma vida enquanto eu desço. Minha cabeça dói, eu não lembro do dia em que ela desistiu disso. Mas algum dia virá, eu digo pra mim mesmo. Meu dia já está escrito, em tinta invisível, com adornos tortos e aliterações ruins. A floresta é funda, sento num banco e olho pra cima. O céu parcialmente encoberto por folhas revela a luz da lua sobre as nuvens, nenhuma estrela a ser vista. Até que eu encontro uma. Dessa vez a lua não desce pra me entregar uma maçã. Pequenas constelações aparecem aonde meus órgãos deviam estar. Eu estou feliz, ainda que exista uma melancolia em mim que nunca vai desaparecer. Eu ouço o apito. Embaixo d'água agora. Batidas de coração.

E elas aceleram. Ela se move. Seu sono não é combatido. Há uma paz nele. Como um dia no parque, vendo as crianças brincando até a hora em que os brinquedos fiquem desocupados. O silêncio após a tempestade é muito maior do que o que a precede. Furacão. Meus pés estão frios. Castelos na França. Eu não gosto de castelos, eu sou o filho do meu pai. O vulto passa por mim, ele fala comigo em uma língua estrangeira. Estrangeiro, destinado a ser sempre um turista. Não há tristeza, no entanto. Um sol feito de queijo que não te fizesse mal. Acredite em mim. Nós vamos crucificar todos os medos, todos os sonhos ruins.

Batidas de coração. Respiração funda agora. Pesadelos? Estou em algum lugar, perdido no meio do mar. Perdi meu navio, flutuo num bote salva-vida. Algo me alcança pela água. Não escuto uma voz. Acordo na exata metade da noite, minha cabeça no lugar mais estranho. Batidas de coração. Escuto a música em minha cabeça. Relaxante pra mim. Tudo está no seu lugar certo, por hoje. Por agora. Bocejo. Ela se mexe. Fui barulhento? Percebo que nesse momento utilizo a cortina como uma peruca, rapidamente me ajeito. Sorrio pra mim mesmo. Escrevo poesias na minha testa. Por hoje. Batidas de coração. Lentas agora. Distantes. Coração de chambinho, daquele bem rosa. Rios disso. Barcos de bolacha. Árvores de qualquer coisa. Não quero deixar agora.

A manhã. Batidas de coração. Minhas mãos estão dormente. Deus, eu estou inteiro dormente. Pergunto-me se estou dormindo, como um daqueles sonhos hiper-realista aonde tu acha que acordou, vai na cozinha e a gelatina fala contigo. Ou o salaminho. Sou gordo, quem eu estou tentando enganar? O iogurte light nunca tem voz nos meus delírios, imagino que se tivesse soaria algo como o Antônio Fagundes. Ah, a ironia. Divaguei. Como sempre. Batidas de coração. A música soa pelo quarto. É a hora. Batidas de coração. Batidas de coração. Batidas de coração. Batidas de coração.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

surf side of the moon


Moleksom está sentado em sua mesa. A sala está esfumaçada em seu próprio sucesso, em sua indefectível glória. Podemos nunca ver o retorno do salvador, mas Moleksom não podia se importar menos. Não mais. Olhos fixamente no relógio. Ele é o produtor mais relevante da cidade, ele finalmente conseguiu. O que exatamente ele produz ainda não foi descoberto por ninguém. Funciona. Só funciona. Claro que incautos podem chamar de incompetência generalizada, ainda assim isso não faz sentido. Por que alguém deveria saber fazer o emprego pelo qual um é pago pra fazer? O mundo é um lugar cruel, cachorros choram na chuva, crianças ecoam desesperadas na madrugada, faculdades entram em ruína um pouco mais toda vez que algum garoto fala de assuntos extremamente batidos como se fosse um visionário. Por que as pessoas não conseguem levar um pouco menos a sério? O que aconteceu com a hora do soninho? Moleksom não julga ninguém, com algumas exceções. O relógio se move. É hora de partir.

Um exemplo clássico de imponente masculinidade, nosso herói caminha de crocs pelo corredor do mercado. Uma mosca acerta seu olho. Ele não se move. Não hoje. Hoje é seu aniversário de namoro, sua mulher é uma respeitada cantora de MPB. Com ela, Moleksom troca confissões, poemas e prosas alucinantes. Delírios de noites de verão. A alma jovem se contorcendo em pura inspiração. Moleksom coça o sovaco, cheira, e então se lembra que precisa comprar desodorante. Ele viu uma inspirada campanha de Axe Y, discutiu fervorosamente com todos que não queriam ouvir como aquilo era bem feito. Fazia sentido. As luzes do mercado misteriosamente se apagaram.

Verão, algum lugar nos anos 90. Uma banda de garagem está mandando ver em algum festival. Os jovens com seus poucos anos de adolescência abrem o concerto pra Comunidade Nin Jitsu. Guitarras gritando. Vocais majestosos. Ecos de grandeza. Você reconhece qualidade quando ela te acerta no rosto. Canções de ninar pros zumbis dos nossos tempos, música do cotidiano, a verdade em forma de som. Ele finalmente achou seu som, sua voz. O mundo é um lugar melhor por isso. O público delira. Algo novo. Algo que nos lembra a descruzar os braços em um show, abraçar as pessoas que estão no palco. Algo pra rir, e aonde foram parar essas risadas? Algo pra... Ei, o que aconteceu com os amplificadores?

Moleksom abriu os olhos. Os corredores estavam marcados de sangue, barulhos rondavam as prateleiras. Aliens. Daqueles bem clichês, parecidos com tartarugas ninja. Ele sabia que era o próximo. Seu coração acelerou. Não tinha como fugir, não tinha como se esconder. Era a hora. A hora que ele seria levado, todas as coisas vão. Moleksom começou a chorar. Nunca aprendera se fazer tudo com um guria podia ir além de alisá-la. Nunca fora pro Havaí. Um vulto no corredor. Moleksom gritou de medo. Suas últimas palavras ressoaram fortemente pelas paredes do mercado: “e meus bloqueios?”

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

de tessalonicenses, com ternura


Meu nome é Maicossuel e eu sou uma coxinha. Acho que essa é a primeira coisa que te fazem falar numa entrevista de emprego, por algum motivo. Não que eu seja de grande qualidade, minha massa é seca e meu recheio não faz sentido, mas ninguém escolhe o como nasce. Não conheci minha mãe, ouvi dizer que meu pai usava um belo topete. Minha namorada mora a dois vidros de distância, é o risoles de carne mais bonito dessa porra. Ainda não consumamos nosso relacionamento, namoro a distância é delicado, além do mais eu ainda não sei se eu tenho pinto. Eu deveria ter, sinto uma coceira aonde a alma jovem deságua, mas, honestamente, não sei até que ponto uma coxinha bem dotada seria algo plausível. A moça que serve os outros salgados tem uma certa beleza distinta em si, com seu cabelo amarrado em forma de batata frita, suas unhas de várias cores, seu charmoso sombreado de um bigode. Ouvi dizer que bigode em mulheres é buço. Uma rápida pesquisa no Google resulta em diversas imagens demasiadamente explícitas e num geral sem muito valor, não recomendo.


Estava pensando sobre o estado da música brasileira. Sério, falta apoio. Em cada garagem existe uma grande banda sendo formada, está na hora de valorizarmos melhor isso. Onde está o público? Acho que estão todos ocupados ouvindo indie gay. O que aconteceu com meu rock and roll? Em meus sonhos eu vejo garotas de meia arrastão, carros de corridas antigos, bandas fora da lei, gente ouvindo Raul Seixas! Deixa-me deveras triste ver o estado de tudo. A moça que atende o caixa aqui está estressada. Gritou algo sobre perder sua menstruação, tomara que ela a ache logo.


Minha namorada está meio preocupada hoje. Acredito que sua estufa pode estar mal regulada, o serviço aqui já foi melhor. Eu me lembro com lágrimas nos óleos do tempo em que ficávamos acordados até tarde, tocando violão em rodas de fogueira. Nessa época eu tinha uma banda, sim senhor: Eu, você, o Pão de Queijo e os meninos do sopro. Ah, doces sons de outrora, como uma brisa leve vindo de oeste, indicando geralmente chuva ou boas ondas. Por que eu deveria cortar meu cabelo? Não senhor! Eu não vou me adaptar! Eu nunca vou me adaptar! O espírito juvenil nunca pode envelhecer. Posers tentam imitar, até conseguem a atenção das garotas, mas eu sei que entre quatro paredes elas suspiram meu nome. Que porra eu devo fazer? Sou gostoso mesmo, vou direto pra sua bunda, calorias primeiro, pergunto o nome não.


O sol reflete nos meus suaves traços. Mais um belo dia nesse planeta, quero beijar a grama e... Ah não, ah não! O assassino da camiseta do Vasco! Todo dia esse cara vem aqui e leva alguns dos meus vizinhos, isso não pode estar certo. Sempre grudado no balcão, falando algo sobre oferecer Red Label pras garotas em troca de favores sexuais amplamente desfavoráveis, tratamento contra calvice e num geral pagode. O que ele está fazendo? Por que suas mãos estão em torno de mim? Ele está babando. Isso não pode estar certo. Mães do mundo, por que seus filhos não comem frutas? Ouvi dizer que elas nunca tiveram terminações nervosas, muito menos faziam “mu”. Ó destino trágico, ó morte lamentável. Como deve ser encontrar sucos gástricos? E todos meus sonhos? Eu nunca conheci Paris! Penso em tentar uma escapada, me jogar de sua mão e rolar por sua câmera. Meu plano falha, não consigo me soltar. Acho que você tem que apreciar alguém que pega seu salgado com tanta força, como uma garota católica esmagando a bíblia em seus vastos seios. A primeira mordida. Ele quase acerta minha cabeça, meus sentidos vão desaparecendo. Rapidamente perderei a habilidade da fala. Tanto que eu queria comentar, tanto pra se falar, tão pouco tempo. Nunca consegui entender qual é o lance de akakkaska/q//1/1/sasasozoizoiioiooi2@!1Asdas&*8SdsaqSZZXxzx …. aasazcxxaooq!!!    /   /       & ..,,,                        ! , Aaaah1                  .