Batidas de coração. Perdendo o rumo. Saindo do tempo. Pulsando. Como desenhos na areia, minha visão dissolve com a chegada da água. Existe uma luz no quarto, uma luz. Eu checo minha mochila de novo, e de novo, nunca a me assegurar que meu livro não caiu em algum lugar na rua. A avenida está vazia, apenas as luzes de postes no horizonte indicam alguma vida enquanto eu desço. Minha cabeça dói, eu não lembro do dia em que ela desistiu disso. Mas algum dia virá, eu digo pra mim mesmo. Meu dia já está escrito, em tinta invisível, com adornos tortos e aliterações ruins. A floresta é funda, sento num banco e olho pra cima. O céu parcialmente encoberto por folhas revela a luz da lua sobre as nuvens, nenhuma estrela a ser vista. Até que eu encontro uma. Dessa vez a lua não desce pra me entregar uma maçã. Pequenas constelações aparecem aonde meus órgãos deviam estar. Eu estou feliz, ainda que exista uma melancolia em mim que nunca vai desaparecer. Eu ouço o apito. Embaixo d'água agora. Batidas de coração.
E elas aceleram. Ela se move. Seu sono não é combatido. Há uma paz nele. Como um dia no parque, vendo as crianças brincando até a hora em que os brinquedos fiquem desocupados. O silêncio após a tempestade é muito maior do que o que a precede. Furacão. Meus pés estão frios. Castelos na França. Eu não gosto de castelos, eu sou o filho do meu pai. O vulto passa por mim, ele fala comigo em uma língua estrangeira. Estrangeiro, destinado a ser sempre um turista. Não há tristeza, no entanto. Um sol feito de queijo que não te fizesse mal. Acredite em mim. Nós vamos crucificar todos os medos, todos os sonhos ruins.
Batidas de coração. Respiração funda agora. Pesadelos? Estou em algum lugar, perdido no meio do mar. Perdi meu navio, flutuo num bote salva-vida. Algo me alcança pela água. Não escuto uma voz. Acordo na exata metade da noite, minha cabeça no lugar mais estranho. Batidas de coração. Escuto a música em minha cabeça. Relaxante pra mim. Tudo está no seu lugar certo, por hoje. Por agora. Bocejo. Ela se mexe. Fui barulhento? Percebo que nesse momento utilizo a cortina como uma peruca, rapidamente me ajeito. Sorrio pra mim mesmo. Escrevo poesias na minha testa. Por hoje. Batidas de coração. Lentas agora. Distantes. Coração de chambinho, daquele bem rosa. Rios disso. Barcos de bolacha. Árvores de qualquer coisa. Não quero deixar agora.
A manhã. Batidas de coração. Minhas mãos estão dormente. Deus, eu estou inteiro dormente. Pergunto-me se estou dormindo, como um daqueles sonhos hiper-realista aonde tu acha que acordou, vai na cozinha e a gelatina fala contigo. Ou o salaminho. Sou gordo, quem eu estou tentando enganar? O iogurte light nunca tem voz nos meus delírios, imagino que se tivesse soaria algo como o Antônio Fagundes. Ah, a ironia. Divaguei. Como sempre. Batidas de coração. A música soa pelo quarto. É a hora. Batidas de coração. Batidas de coração. Batidas de coração. Batidas de coração.