quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

a noite

Eu não sei como começar. Okay. Eu sei como é algo realmente promíscuo. Eu sei como é ficar cansada pelo banal. Acho que eu sempre tentei demais, talvez esse tenha sido meu problema. Eu nunca consegui sair muito da minha ótica, talvez isso que eu precisava. Você não se importa se eu fumar, né? Okay. Eu devia me apresentar antes de qualquer coisa, mas eu sempre achei tão trivial. E se minha identidade não for importante? E se eu não for o narrador, se eu for o personagem? Eu sempre tive medo de não existir, de ser um sonho de outra pessoa. Da minha realidade ser uma ficção tosca. Você pode me trazer um café? Depois? Sem problema, acho que eu deveria começar a falar do meu motivo de estar aqui.


Eu não sei porque quis sair de casa aquele dia. Eu botei uma blusa roxa que minha mãe me deu, e minha saia de final de verão. Eu nem botei maquiagem. Acho que eu estava tentando fugir de ontem, escapar pra uma praia distante e observar os amantes encarando o pôr do sol como se fosse algo novo. A cidade cheirava a desodorante barato, e em cada esquina eu via garotas sentadas dividindo salgadinho vagabundo. Eu tinha que entrar na praça, foi aonde começou. Ele pulou, socou minha nuca, eu cai no chão junto com tudo que eu acreditava até então. Você sabe o que é isso? É aquela experiência que muda a vida, que sempre te acerta quando tu menos espera. Ele rasgou minha saia, mastigou minha blusa, eu tentei até não conseguir tentar mais. E aí aconteceu, sabe.


Quando eu cheguei em casa, meus olhos estavam doendo. Eu roía minhas unhas desesperadamente, até que não havia nada além de carne sangrando. Minha cabeça era uma armadilha, eu não conseguia me mexer direito. Eu me abraçava tão forte que ainda consigo sentir meus braços me esmagando. Que porra eu tenho que fazer pra ganhar um café aqui? Se eu te deixar me dedar pra tu poder contar pro teus amigos tu me dá uma porra dum café? Eu lembro de me olhar no espelho e não reconhecer aquela imagem. Eu liguei pra minha mãe, me arrependi assim que ela falou de ir pra minha casa. Fazer o que? Eu não precisava de atenção, eu não precisava de alguém me deixando mais nervosa ainda. Impressionante como as pessoas em volta tem sempre o talento de se vitimizar na face da tragédia alheia. Vocês são a porra da audiência, não os atores. O sofrimento era meu, era só meu, e eu me agarrava nele com um egoísmo monstruoso. Era o que eu tinha. Eu me encostei na janela e me beijei até conseguir dormir.


Acordar foi estranho. Por todo o furacão que a noite foi, eu acordei calma. Eu tenho 27, nunca consegui muita coisa, certamente não me vejo conseguindo nada em qualquer forma de futuro. Por tudo, eu tenho a tendência de falar sozinha mais do que com qualquer pessoa. Quando você se perdeu faz tempo, todo absurdo parece menos absurdo. Tá, pode parecer uma forma leviana essa a minha de encarar isso. Mas quando você quiser falar, por favor, diga todas as formas que eu estou errada. Mas agora sou eu aqui. Ele não foi violento, sabe. Não foi como nos filmes, ou como imagino que deva acontecer normalmente. Em algum ponto eu podia jurar que estávamos conversando, isso faz qualquer sentido? Mas a partir daquela manhã minhas ações pararam de fazer sentido. Acho que eu não entendo a mente feminina, então não vou fingir que entendo. Vou direto pro ponto.


Eu comecei a ter todo tipo de impulso estranho. Eu passei a voltar todo dia de noite pra praça usando minha blusa roxa idiota que minha mãe comprou sem que eu tivesse pedido. Eu não prestava mais atenção em garotas comendo salgadinho, eu não prestava atenção em nada mais. Na verdade, isso é só um detalhe do que acontecia comigo. Falar estava foda, fingir qualquer interesse pela conversa dos outros estava mais delicado ainda. As pessoas olhavam pra mim como se eu tivesse fumando crack, como se eu tivesse alguma doença mortal. Aquela praça virou o único lugar conhecido pra mim, e eu sei que parece babaquice. Uma vez era de madrugada e meu telefone tocou. Eu atendi, e do outro lado não ouvi nada. Só uma respiração, mas não aquela respiração clichê de filme, e sim uma leve sugestão de que alguém estava ali. Posso ser louca, mas eu sabia que era ele. De alguma forma tinha que ser ele. E eu só fiquei ali. Sentada. Sem falar nada também. Na minha frente tinha um espelho, eu me olhei ali jogada com o telefone no ouvido. Como se tivesse aprendido algo. Mas o que tem pra aprender? Quem é alguém pra me dizer que aquilo era errado? Eu só fiquei ali.

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