terça-feira, 24 de maio de 2011

minha vida com manchete do vale

Marina era uma garota estranha. Ela costumava beber pra ficar encarando os barcos deixando o porto. Ela não tinha um braço, perdeu num acidente bizarro com torniquete quando tinha 7 anos de idade. Sua mãe gostava de lembrar isso quando tomávamos chá antigamente, ela se mijava de rir berrando “você devia ter visto a cara dela!”. Já Marina não falava muito. Acho que era esse seu estilo. Ela também não tinha a ponta da língua, perdeu infelizmente quando aos 9 anos teve uma convulsão ao assistir Pokémon próxima demais da televisão. Foi o preço a se pagar pelos anos mais tresloucados daquela quente juventude. Seu pai contava as histórias sobre a brotolândia de outrora, sobre como tudo era mais limpo e as mulheres não passavam desodorante! Afinal, como todo mundo sabe, Marina tinha Hidrosadenite Supurativa nos sovacos, o que dificultou deveras sua vida social por muitos anos. Ela não se importava lá tanto.


Recordo-me de uma alegre conversa que eu tive com ela, até certo ponto dificultada pela gravíssima disfemia que ela possuía. Marina contou sobre como seu irmão mais velho gostava de ir em seu quarto colocar a mão por dentro de sua saia, e como ela ainda sente aquela coceira até hoje. Não dá pra inventar esse tipo de coisa! O mencionado irmão era um cara normal, até certo ponto bacana. Uma vez ele tava praticando handebol quando infelizmente atingiu a irmã na cabeça, resultado numa concussão de grau altíssimo. Até hoje Marina não sabia distinguir amarelo de azul, ascender em qualquer escada também se tornou um empecilho pra ela.


Certo dia ela recebeu o e-mail do cachorro sorrindo. Após convulsionar pesadão, ela pensou se tratar apenas de rotina, não tomou como mau presságio. Mal ela sabia! Aquela noite ele apareceu em seus sonhos. Disse que seu nome era Roberto e que ele precisava dela como redatora duma revista sobre a cultura itajaiense. Marina acordou suando, começou a chorar com seu lamentável, e aparentemente inevitável, destino. Na noite seguinte, ele apareceu de novo. Disse que ele daria uma Nikon profissional se ela aceitasse tirar fotos do ferry boat. Depois pediu que ela entrevistasse o Magru Floriano, baluarte da cultura local. Aí foi um pouquinho demais. Na manhã seguinte, um cinzento dia de maio, Marina se tacou da ponte. Bateu numa tartaruga que passava perdida e ficou meramente paraplégica. Ela ainda tem pesadelos com Itajaí, mas se orgulha de nunca ter aprendido a fazer um lead.

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