terça-feira, 22 de março de 2011

veludo vermelho ou nada

Maria acordou com sua cabeça em chamas. Havia algo notavelmente triste na pressa que a manhã teve em chegar. Suas roupas espalhadas pelo quarto, ela tenta se lembrar de tudo que aconteceu. Cedo demais pra isso. Ela escorrega até o banheiro, aonde evita de se olhar no espelho e ao invés consegue fugir para o chuveiro. Sua pele parece falsa, seu rosto é de vinil. Tudo começa a voltar. Quem era aquele cara de novo? Não que ela tenha culpa. O idiota do ex-namorado começou a comer uma daquelas garotas que pinta o cabelo. Ela sai do banho, ao entrar na sala há um homem sentado no canto.

- Você de novo - disse Maria, ainda estava completamente sem roupa, secando seu cabelo enquanto andava pela sala. - Fazia algum tempo que você não aparecia.
- Acho que essa deve ser minha maior qualidade, eu sou confiável - o homem então apagou seu cigarro.
- Não sei se eu te chamaria disso, penso em tantos adjetivos.

Maria andou até o quarto, botou um roupão e acendeu um cigarro. Ela voltou e ficou bastante tempo olhando pra pessoa na sala. Um fantasma do passado, um delírio de várias noites de um verão esquecido.

- Quando isso começou, huh - questionou o homem acendendo outro cigarro.
- Você vai ser enigmático agora. Eu gosto mais de você em silêncio.
- Não seja assim, você entendeu o que eu quis dizer. Mas eu gosto como sua cabeça funciona desse jeito fragmentado.
- Claro, se é o que você diz. Mas por que tu sumiste?

Era uma terça-feira, perto da meia-noite. Maria voltava pra casa quando ela foi atacada por 2 homens. Eles rasgaram suas roupas, levaram tudo que ela tinha no bolso. Ela tentou reagir, eles a espancaram. Não havia sinais de estupro.

- Eu não sumi. Curioso que vim pra te perguntar algo parecido... Por que você se isolou tanto?
- Eu tinha que fazer isso - responde Maria ao se levantar pra jogar o cigarro pela janela.
- Nós só ficamos preocupados. E eu sei que preocupação tem uma tendência de se tornar pesado, mas ainda assim. Você não estava sozinha.
- Eu sei. Não pense que eu tive algum tipo de epifania e decidi me esconder numa caverna. Eu acho que só preciso parar de pensar um pouco.

Eles roubaram tudo que ela tinha aquela noite. E quando ela conseguiu se levantar, ainda ninguém havia passado pela rua. Nessa hora ela começou a considerar que talvez tivesse feito um erro de julgamento em entrar ali. Ela foi tropeçando até seu prédio. Quando a porta do elevador abriu, ela pôde se olhar bastante no espelho. Seu rosto parecia um bife. Ela começou a chorar. A porta abriu no seu andar mas ela ainda estava encolhida no canto. Depois de uma breve turnê pelos andares do prédio, ela finalmente encarou sua porta de casa. A chave escondida no medidor de gás acabou sendo uma boa idéia, pelo menos algo deu certo naquela noite.

- Parar de pensar nunca é fácil. Eu até hoje não consegui parar de pensar em você.
- A mãe ainda nos odeia?
- Acho que ela nunca vai aceitar o que aconteceu. É o tipo de coisa que ninguém acredita que possa acontecer na própria família.
- Claro.

Os dois ficaram se olhando por alguns eternos segundos. O silêncio provou ser pesado demais. O homem se levantou, e foi embora com um beijo. Maria estava tonta ao fechar a porta. O cotidiano absurdo virou tão mundano. Ela botou uma roupa, e desceu pra comprar cigarros.

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